quinta-feira, dezembro 18, 2008

Sejamos todos comunistas


Já me chamaram de socialista, comunista, anarquista, petista ( afê)e todos os rótulos à esquerda pelos mais diversos motivos. Por em meio a um ambiente de competitividade angustiante defender algumas coisas para todos, como plantões e estágios, mesmo que isso não faça a menor diferença na luta de classes. Por passar tanto tempo em reuniões por melhorias no curso que não vou usufruir. Por em estando numa universidade pública achar que o ensino na mesma deve ser voltado para as necessidades da população que paga para estarmos aqui e que nunca poderá estar no nosso lugar, em vez de um ensino pautado nas leis de um mercado falido ( vide a crise para ver o que dá se pautar pelo mercado). Por defender uma saúde pública de qualidade, entendendo que saúde não deve ser uma mercadoria, como a vida não deve ser vendida.

Agora a última novidade é ser tachada por comunista, em tom de ofensa, pela devassa que está sendo feita pelo ministério público no nosso curso à procura dos professores fantasmas. Temos no nosso curso mais de 180 professores, cada um contratado para pelo menos 20 horas semanais. Nessa situação, é inadmissível que o internato no HUOL, que muitos defendem com unhas e dentes de maneira acrítica, tenha pérolas de inoperância como o estágio de cirurgia torácica. Lá não se coloca um dreno. Não se vê uma cirurgia. Não se faz um ponto. Não se vê um professor. Não se vê um médico. Nas duas semana que passei nesse estágio, não discuti a conduta com ninguém que tenha um carimbo com um número de CRM (deveria chamar de médico?) uma única vez. E o pior, a paciente que eu acompanhava, passou uma semana sem ter contato com qualquer médico. Como alguém assina a conduta sem ver o paciente? Como tantos estudantes passam por lá e acham normal isso? Aí alguém vem e denuncia isto ao ministério público. Não, não fui eu. Infelizmente, pois adoraria trazer este fato no meu curriculum lates. Mas alguém foi mais rápido e rompeu com o pacto de mediocridade onde estudantes fingem que aprendem, médicos fingem que ensinam, fingem mesmo que atendem, mas os pacientes não fingem que estão doentes.

E de quem é a culpa de tudo isso? Para aqueles que se viram incomodados em sua confortável situação de professores virtuais em consonância com o avanço da informática e do ensino à distância, tudo culpa de um Centro Acadêmico ( do qual nem faço mais parte) e de uma estudante com suas idéias comunistas. Acho injusto com os estudantes que vêm se indignando com esta situação, que externaram isso à reitoria durante avaliação do curso médico, que esse crédito não lhes seja dado também. Já vemos a consciência de que é possível não ser medíocre avançar em nosso meio, apesar das resistências. Também não sabia que indignar-se com a falta de escrúpulos em não assistir um paciente em função para a qual fomos contratados com dinheiro público fosse exclusividade de comunistas. Neste caso, convido a todos, sejamos éticos,lutemos pelo que é comum, sejamos todos COMUNISTAS!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Qualquer semelhança...

"Fiquem tranquilos, só estamos aqui para assegurar uma manifestação pacífica."

terça-feira, dezembro 02, 2008

O Mito da caverna de Hipócrates


Era uma vez uma caverna, onde os médicos viviam aprisionados, presos pelas mãos e pelos pés uns aos outros, numa prática que, posteriormente, evoluiu para o corporativismo.
Os médicos não podiam escapar daqueles grilhões que os seguravam, permanecendo naquela caverna desde o momento em que entraram na universidade até o final da sua vida.
Viviam entretidos por “imagens distorcidas”, “sombras” que eram passadas nas paredes, primeiro por seus professores da universidade; depois, pelas revistas “científicas” e pelos congressos financiados pelas indústrias farmacêuticas. Aprendiam, com elas, o diagnóstico e o tratamento das doenças; mas somente das mais raras, com prevalência de no máximo 1 em 100.000 habitantes, as mais comuns são coisa pra enfermagem...
Como passaram toda a vida presos aos grilhões da caverna, pra esses médicos, medicina é, pura e simplesmente, diagnóstico e tratamento; qualquer outra coisa além disso não é mais medicina. E nem adianta discutir! Suas pupilas entraram numa espécie de “midríase crônica”, tornando doloroso pra eles enxergar qualquer coisa mais luminosa que aquelas sombras.
Um médico, no entanto, angustiado por sentir lá no fundo que medicina não era aquilo, percebeu os grilhões que o aprisionava. Resolveu comentar com os colegas: “Vejam! Há grilhões em nossas mãos e pés!” Os outros, prontamente, responderam: “Ta louco? Faz silêncio se não vou perder a próxima sombra!”
Apesar de rechaçado pelos colegas, o médico inquieto e perspicaz conseguiu livrar-se dos grilhões e virar-se, percebendo que atrás de si havia uma fogueira. Seus olhos doeram bastante quando se virou, mas conseguiu com o tempo se acostumar com a luminosidade.
Percebeu então que os catedráticos projetavam as sombras que ele vira durante toda a vida. Foi rispidamente questionado porque havia se levantado e se livrado dos grilhões e mandaram-no voltar ao seu lugar, dizendo que ele estava louco de pensar que havia algo a mais que as sombras, mas, apesar disso, apesar da pressão daqueles que sempre respeitou, sabia que a medicina não podia se resumir àquilo e foi quando avistou ao longe uma luminosidade mais forte até que a fogueira que formava as sombras.
Conseguiu, então, fugir da caverna e chegar ao lado de fora. Percebeu que muito maior que as sombras na parede, maior que a fogueira dos catedráticos, era o Sol da verdadeira Medicina hipocrática, que só brilhava fora das paredes da caverna.
Doeu bastante até que seus olhos se acostumassem com a luminosidade dela; questionou-se porque tantos outros negavam-se a ver que as coisas iam além das sombras, além do diagnóstico e tratamento; vacilou a princípio por se achar um pouco só, mas sentiu em seu íntimo que aquele era seu caminho, ali sim ele poderia ser um verdadeiro Médico, não um mero prescritor de remédios e exames, alimentado por muito mais que sombras (slides?) na parede...

P.S.: qualquer semelhança com outra história é mera coincidência...Paulo Tarcísio NetoCoordenação Geral do CANECA - Centro Acadêmico de Medicina Nelson Chaves - UFRN