quarta-feira, março 26, 2008

Professores: cadê?



O problema da falta de professores para as mais diferentes disciplinas já é uma questão antiga, a ponto de virar motivo de piadas. Contudo, risos a parte, o que é mais preocupante é o comodismo que isso gera dentro da comunidade acadêmica, em virtude da naturalização de uma distorção crônica. Com o tempo, acaba-se achando normal uma consulta psiquiátrica ambulatorial com vinte estudantes assistindo, ou a atitude de se levar pacientes para a sala de aula para que metade de uma turma veja, como num zoológico, as mazelas de um cidadão.
Exatamente: cidadão! Por mais que essas iniciativas sejam formas de se tentar contornar uma carência de aulas práticas, elas esbarram em questões éticas gravíssimas. Aquelas pessoas a quem nos acostumamos a chamar de pacientes, como seres que passivamente agüentam todo tipo de desaforo, são cidadãos, tanto quanto os pais de qualquer um (imaginem isso), e têm o direito de ter sua dignidade preservada, assim como nós temos o dever de combater esse tipo de prática. Essa é a razão desse texto e deve estar sempre em mente quando se discute os problemas pedagógicos do curso.
Mas, e as aulas?
O início desse semestre foi marcado por uma verdadeira enxurrada de problemas com número reduzido de professores e excesso de estudantes nas práticas. Só para citar alguns exemplos:
O Departamento de Patologia não está ministrando as aulas inseridas ao longo das diversas clínicas;
A disciplina de Doenças Endócrinas e a de Doenças Reumatológicas oferecem aula prática para apenas metade dos estudantes em cada semana;
Ortopedia há muito tempo não tem aulas práticas;
As disciplinas de Atenção à Saúde e a de Administração Sanitária não tem professores para ministrá-las em virtude da aposentadoria ou do afastamento de alguns;
Psiquiatria há muito tempo divide a turma em dois grupos de mais de vinte acadêmicos para as práticas;
Além disso, os grupos com 10, 11, 12 ou mais estudantes nas consultas de proctologia, de dermatologia e tantas outras gias...
O número limitado de professores sempre é o argumento levantado, quase como uma unanimidade, quando se tenta justificar medidas como as citadas no início, e em alguns casos realmente ele é plausível. Porém, será que realmente se limita à contratação de novos docentes a solução de tudo?
Já é fato sabido por muitos, e abafado por todos, o absenteísmo docente no nosso curso. Professores que recebem seu salário para executarem uma carga horária de 20 ou 40 horas, mas que só aparecem uma ou duas vezes num semestre em sala de aula (quando muito). Um professor desse tipo ainda teve o descaramento de solicitar aumento salarial numa reunião ordinária do Conselho do Centro de Ciências da Saúde (CONSEC) há um ano. É rir para não chorar... E o pior é que, se o processo chegou até essa instância, é porque ele foi aprovado pelo departamento em questão...
Isso é roubo de dinheiro público, e é culpado tanto quem rouba quanto quem acoberta. Omitir-se também é crime. Corrupção tanto quanto os famigerados cartões corporativos, as cuecas, etc. Desrespeito para com os estudantes, os professores que realmente cumprem seu papel (e nós sabemos quem são eles) e, principalmente, os usuários. E muitos desses meliantes é que vão abrir a boca para, hipocritamente, nos ensinar ética...
Mas também existe uma outra face desse problema. Trata-se do modelo de educação médica centrado na especialidade. Apesar dos avanços em nosso Projeto Político Pedagógico na tentativa de formação de um médico generalista, capaz de atender um ser humano de forma holística, muitos professores nos ensinam ainda como há trinta anos, são especialistas incapazes de dialogar com as demais especialidades. Trata-se de um carro novo numa pista velha e esburacada. Por isso é que se precisa de 10, 11, 12 preceptores por cada especialidade.
Só para se ter uma idéia do viés do argumento usado, o curso de medicina, o qual detém o maior número de docentes na UFRN, no ano passado tinha, segundo a lista disponibilizada pela coordenação de curso e enviada em outubro para os e-mails das turmas pelo CANECA, 181 professores espalhados por DMC, DMI, DPED, DGO, DSC, CIR, PAT e INF. Em 2007.2, havia 563 acadêmicos de medicina matriculados. Isso resulta numa relação média discente-docente de 3,11. A situação atual é um verdadeiro absurdo!
Por isso é que não se pode tolerar as atitudes citadas para “contornar a carência de preceptores”. O buraco é muito mais embaixo. É necessário confrontar essa erva daninha de forma a cortá-la pela raiz, para que nossa educação aconteça concretamente, não só do ponto de vista técnico, mas principalmente do humanístico e do ético. Isso se aprende no cotidiano, na prática de todos os dias, em cada momento, e não da boca para fora ou numa mera disciplina.
Por isso, se você se indigna com toda essa falta de escrúpulos e de caráter, denuncie!
Henrique Gonçalves

segunda-feira, março 24, 2008

Café do Vento - ventos musicias diferentes em Natal


Provenientes de distintas escolas musicais, os compositores Roderick Fonseca (violino) e Mazinho Vianna (violão) criam a tessitura das peças da banda aliadas aos arranjos percussivos de Sami Tarik e Kleber Moreira. O inusitado sempre foi uma característica do grupo, ações cênicas misturam-se à execução instrumental da banda.O resultado é um som em que a percussão criativa se alia ao violino e às flautas numa mistura inovadora que mescla até Bolero de Ravel com Raul Seixas, Ciranda com música instrumental. Mostra que existe sim vida no meio cultural de Natal. E mesmo que muitos não a conheçam se faz conhecida mundo afora, indo representar nossa terra em um festival musical na Saxônia ( Alemanha) em Julho. Vale a pena prestigiar enquanto não se vão.


Mais informações: http://www.cafedovento.mus.br/

sábado, março 22, 2008

REUNI e Bacharelado em Ciência e Tecnologia: Que bicho é esse?








Como parte dos desdobramentos do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - REUNI, teremos na UFRN o Bacharelado em Ciência e Tecnologia. Mas o que vem a ser isso?
Segundo informações da própria reitoria, será uma nova forma de acesso aos cursos de engenharias e outros da tecnológica como bacharelados (matemática, física...). Na verdade, pode ser uma forma de acesso. Será um curso de três anos, com turmas em média de 180 estudantes que ao longo do cursam optam e são selecionados ( através de prova e IRA) para seguir na aréa de formação de ciência ou tecnologia. E ao final destes 6 semestres saem com um diploma de...bacharel em ciência e tecnologia! É um engenheiro? Não! Matemático? Não! É um bacharel em ciência e tecnologia. E para que serve esse diploma? Para ingressar num mestrado, fazer concurso público de nível superior, ter prisão em regime especial...Ah, também pode servir para ingressar em outros cursos, que aí sim a gente sabe pra que serve, tipo, engenharia, matemática, física....
Também está prevista uma maior interaçãoda pós-graduação com a graduação. Como? Os estudantes de mestrado e doutorado vão dar aula também. Para quê contratar professores se temos estudantes para dara aula para os outros estudantes? E também haverá super-monitores com bolsas diferenciadas para ajudar nessas turmas hipertrofiadas.
E quando começa tudo isso? Segundo a reitoria, a primeira entrada já será em 2009.2. E ficou claro na reunião em que tudo isto foi passado ao CANECA que isto é uma experiência inicial. Parece que a UFRN tem ambições de seguir exemplos de outras universidades em que isto já acontece em outras as áreas, como é o caso da federal do ABC (SP) e a UFBA ( BA). E depois a gente continua achando que o que acontece na Universidade não tem a ver com a gente...




quarta-feira, março 19, 2008

Saúde no Rio Grande do Norte: prognóstico reservado.


Estive recentemente visitando a rede básica de saúde de Recife e, como potiguar, senti o orgulho um tanto ferido. Invejei um bocado o direito dos pernambucanos serem bairristas como se costuma dizer. Encontrei na rede básica de saúde medicamentos como antibióticos e antivirais ( tipo o aciclovir ) que não encontro no hospital de referância de infectologia do nosso estado. Lá também vi o quanto a rede básica de saúde pode ser resolutiva, desde que sejam dadas as mínimas condições e os profissionais sejam preparados e queiram fazer a sua parte. Lá vi o posto de saúde não ser um mero balcão de encaminhamentos.
Já aqui...Parece haver um pacto de mediocridade que congrega dos governantes ao agente de saúde, passando claro pelos médicos. Claro, não devemos generalizar, pois tem muita gente boa dando o melhor de si pra fazer com que a população tenha uma assistência à saúde digna. Mas também tem muita gente que parte da idéia de que quanto pior, melhor. E lucra com isso. Lucra por que isso demanda mais verba, e então rouba mais, lucra por que isso demanda soluções emergenciais com profissionais sendo pagos de maneira diferenciada, lucra por que isso gera votos, lucra por que em meio ao caos qualquer um que der (ou vender barato) aquilo que o povo deveria ter de graça é um herói. Soube recentemente que na rede municipal de saúde de 100 equipes de PSF, 52 estão sem médicos. Não acho que o médico seja único na assistência à saúde, mas acho que a população tem que ter o direito de ter uma consulta com um médico ( ou nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta...) se precisar.
A visita a Recife só confirmou a minha impressão de que o SUS tem solução sim. E não é o tipo de solução que vem sendo proposta por exemplo pelo sindicato dos médicos de jogar paras as empresas a responsabilidade com a saúde de seus funcionários ( e quem não tem carteira assinada?). Também não concordo com quem diz que o problema é só o governo. Muito fácil se eximir da culpa. O problema é de todos. inclusive nosso. O que o nosso curso está contribuindo para formar médicos melhores para o SUS? O que nós estamos fazendo para que ele cumpra essa função? Estou cansada de ver, por exemplo, médicos formados em escolas privadas mais preparados para a atenção básica ( que deveria resolver 85% da demanda da saúde) do que aqueles vindos de escolas públicas, que só pensam (muitos, não todos) em fazer a especialidade onde tenha mais procedimentos e próteses e medicamentos com que possam ganhar em cima do paciente ou do sistema ( público ou privado) consolidando uma indústria da doença. Quanto mais doente melhor, ganha-se mais. Não nos vejo preparados para promover saúde, trazer saúde, mas sim para lucrar com a doença.
Minha angústia maior, um tanto mesquinha e egoista é verdade, é que tenho visto tudo caminhar para dentro de um curto prazo o nosso curso não ser mais o melhor do estado. Não que não tenha bons professores, não que não tenha bons estudantes, não que não seja possível fazer as mudanças necessárias para se ter um curso excelente em uma universidade pública. Mas parece que um vírus de paralisia contaminou a professores, estudantes, e nada mais importa do que "bater o ponto" ( e isso importa?) na sala de aula. Dessa forma, é difícil querer que quando estivermos lá no SUS não se assuma a postura cômoda e medíocre de jogar a culpa no governo, no gestor, no SUS...

terça-feira, março 18, 2008