segunda-feira, agosto 24, 2009

Mulheres golpistas, mulheres golpeadas

por peruano última modificação 20/08/2009 11:39


CRÔNICA Outro dia de julho no eterno junho negro de Honduras

Melissa Merlo No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance. Umas receberam poder, outras, dinheiro, e outras, as ingênuas, receberam santas indulgências.Se vestem de branco para satirizarem o camponês e o pobre enegrecido do trabalho. As caras curtidas, os descalços, os professores que caminham diante de suas pulcras casas lhes provocam náuseas, e elas, brancas e pulcras como suas casas, expelem sapos e cobras contra os que lutam por ser livres.
Elas, as de branco, estão presas em suas lindas casas. Oprimidas por pais, noivos, esposos, amantes ou filhos. Gaiolas de ouro em pleno século 21. A pouca liberdade que conhecem é a de se vestir de branco, jeans e sportshoes, alisar os cabelos para que combinem com um lindo chapéu, pintar suas unhas acrílicas com motivos brancos, escolher a jewlery do dia, um toque discreto de 212 forwomen, e preparar uma backpack com a garrafinha de Evian, um pacotinho de light cookies, o glossy, uma foodcard e um lencinho para o suor, que descobriram que destrói a maquiagem.
Com a checklist terminada, vestem suas empregadas de branco, branco perfeito em caso de emergência, põem seus óculos Dior e saem a sussurrar pela paz e a democracia. Duas horas são suficientes nesse calor sufocante. Mas, por sorte, estão perto dos fastfood.
Com um iced tea e um pouquinho no airconditioner, o corpo terá de novo seu frescor habitual. Sua ideia de paz voa pelos ares com a velocidade de um projétil, cai ferida no pavimento e explode em uma espécie de gás, branco, claro, que incompreensivelmente faz correr a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com trapos sujos que as faz tossir e se asfixiarem como doentes.
A paz implodiu, hora de ir para casa. No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance.
Umas receberam fome, outras, insultos, e outras, as mais valentes, receberam golpes brutais. Vestem- se de cores para satirizar a chuva, o sol inclemente, a ignorância. As caras brancas, os bem-vestidos e os empresários que dirigem diante de suas casas curtidas lhes provocam pena, e elas, coloridas e curtidas como suas casas, expelem gritos de liberdade contra os que lutam por humilhá- las.
Elas, as coloridas, estão livres em suas casas coloridas. Apoiadas por pais, noivos, esposos, amantes, filhos, ou por ninguém. Casas abertas em pleno século 21.
A liberdade que conhecem é a de se vestir de cores, yin e tênis, enfiar os cabelos dentro de um chapéu, esconder suas unhas de pontas descascadas cheirando a comida caseira, escolher as bijuterias do dia, uma boa borrifada de uma imitação de 212 para mulheres, preparar uma mochila com a garrafa de água, um saco de sanduíche, o estojinho de maquiagem, uns 50 lempiras em dinheiro e um lenço molhado, caso joguem gases lacrimogêneos. Com tudo na mochila checado, vestem seus filhos com cores, roupa muito cômoda em caso de emergência, põem seus óculos imitações da Dior e saem a gritar pela liberdade e pela pátria. Doze horas são suficientes nesse calor sufocante.
Mas, por sorte, estão perto dos pronto-socorros. Com uma horchata e um pouquinho na sombra, o corpo terá de novo sua energia habitual. Sua ideia de paz caminha pela rua ao ritmo de tambores, enérgica, avança pelo pavimento e se espalha em uma espécie de grafite colorido, claro, que incompreensivelmente faz retroceder a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com as mãos, e as faz se meterem em seus carros e se esconderem temerosas. A liberdade implodiu, hora de seguir adiante.Tradução: Igor Ojeda. O original, em espanhol, encontra-se em http://alainet.org/active/32140

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