
Na última edição 2205 de 23 de fevereiro de 2011 o panfleto neoliberal que atende pelo nome de Veja traz como tema de capa a possível e desejável, mas ainda não consolidada, proibição pela ANVISA ( Agência Nacional de Vigilância Sanitária) da venda de alguns medicamentos para emagrecer (anorexígenos). A carta ao leitor que trata da temática recebe o título de " A opressão em nome do bem". Vejamos o que há por trás disto tudo e a ideologia dos argumentos da revista revestidos de um verniz de utilidade pública e cientificidade barata.
A Anvisa tem sua criação nos marcos das reformas do estado brasileiro realizadas com a finalidade de cumprir o Consenso de Washington. Está na sua criação em consonância com a idéia de estado detentor de um papel regulador, porém sem grandes intervenções. Tem como objetivo regular medicamentos, equipamentos médicos, alimentos e agrotóxicos. No entanto, por muito tempo, teve uma atuação insípida com relação principalmente aos medicamentos, pois não é fácil enfrentar a indústria farmacêutica, a qual gasta mais com propaganda visando convencer os médicos a prescrever seus produtos que com pesquisas de novos medicamentos. Porém nos últimos tempos tem tido atuação mais incisiva como quando proibiu os brindes dados pelas indústrias aos médicos e estabeleceu controle mais estrito na prescrição dos antibióticos com vias a combater a automedicação e diminuir a resistência bacteriana , medidas que tem desagradado às indústrias e aos médicos. Nesta investida, coloca para discussão com a sociedade a retirada do mercado de quatro medicamentos para emagrecimento, sob alegação de falta de consistência nos estudos que mostram resultados e efeitos adversos graves frente a perdas de peso discretas e não sustentadas a longo prazo. Baseando-se na opinião de especialistas, opinião nem sempre isenta de conflitos de interesses, que a revista coloca em questão tal medida.
A reportagem da revista começa citando os milhões de brasileiros que não conseguem emagrecer por uma questão biológica, dependendo portanto dos medicamentos sob suspeita. A idéia que perpassa essa afirmação é a biologização da vida, ignorando fatores sociais, culturais e econômicos. Ou será que metade dos EUA passou a ter nas últimas décadas um problema meramente biológico que fez com toda esta população esteja com sobrepeso ou obesa e que o complexo Industrial Farmacêutico mais pujante do mundo não tenha conseguido conter tal epidemia com os remédios em questão? Na verdade mesmo com a dubiedade do órgão fiscalizador americano, o FDA, que vez ou outra tem ex-funcionários das indústrias farmacêuticas em seus quadro de funcionários, alguns destes medicamentos já foram proibidos no mercado americano. A revista ancora sua defesa na opinião da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) que se apóia em estudos considerados insuficientes pela ANVISA. Ora, a Veja é a primeira muitas vezes a colocar como capa um novo remédio para o que quer que seja amparada em poucos estudos, de forma sensacionalista e propagandista. O papel central dado a medicamentos e procedimentos médicos pela revista demonstra uma posição ideológica de medicalização da vida, onde toda tristeza passa a ser depressão, oscilação de humor é transtorno bipolar, estar fora dos padrões de beleza imposto pela mídia é um problema a ser resolvido cirurgicamente, a obesidade como algo meramente biológico, tudo isso com um remédio ou uma intervenção médica à venda no fabuloso mercado da saúde e da beleza capitalista.
A epidemia de obesidade que vemos hoje pelo mundo é um reflexo da sociedade de consumo que vivemos. E a ânsia por um remédio que resolva tudo uma faceta do imediatismo inerente a esses tempos onde não temos tempo de comer bem, nos exercitar. Isso é evidente nos supermercados. Antigamente se vendia hamburguer pronto, para fazer o sanduíche em casa. Agora compramos o sanduíche pronto, congelado, só colocar no microondas. Claro que para produzir toda essa comida pronta, torná-la atrativa aos olhos e paladar e obter lucro a indústria tem feito uso cada vez maior de conservantes, sódio, açúcar, gordura e matérias-prima de baixa qualidade. E tudo temperado como muita propaganda livre de regulação até o momento. Sintomas disto são as doenças relacionadas à obesidade como pressão alta, alterações das taxas de gordura e açúcar no sangue estarem cada vez mais comuns entre as crianças. É de se esperar que a expectativa de vida em algumas décadas se reduzirá pelas doenças derivadas da obesidade. Daí ser louvável a iniciativa da ANVISA de querer restringir as propagandas de biscoitos e refrigerantes.
Um dos principais argumentos da Veja contra a medida é a liberdade individual e a falsa premissa de que nos são dados todos os elementos para realizarmos nossas escolhas. Será que é dito ao paciente verbalmente pelo médico que algumas pessoas morreram com o uso daquele remédio? Que o médico teve sua viagem para o último congresso de atualização paga por laboratórios que também financiam os congressos e as pesquisas e só publicam os dados favoráveis? Que o todynho(achocolatado) que dá ao seu filho de lanche todo dia tem a quantidade de sal que deve ser consumida em um dia inteiro? Que o combo do MacDonalds que lhe serve de almoço extrapola as quantidades de calorias necessárias para todo o resto do dia? Argumento mais liberal impossível.
A questão da obesidade não é uma questão simples, está ligada a todo um modo de vida e uma ideologia consumista e imediatista que se forjou no capitalismo atual e para qual não há uma pílula mágica à venda na farmácia da esquina. É uma questão de saúde pública e como tal precisa ser encarada, sendo legítima a atuação da ANVISA com vias de proteger a população da sacrossanta liberdade de prescrição de médicos que, querendo ou não, acabam servindo de correia de transmissão dos interesses das Indústrias farmacêuticas e da ideologia do capital .
Ana Carolina de Souza Pieretti

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