terça-feira, novembro 02, 2010

E agora José?


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou, z
o teu eleitor sumiu,
a campanha findou,
e agora, José?
E agora, você?
Você que mente e engana,
que zomba dos outros,
você que faz calúnias, manipula,
que odeia, detesta?
E agora, José?
Está sem mandato,
está sem discurso,
está sem caminho,
já não pode ofender,
já não pode degradar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
a campanha passou,
o dia da posse não vem,
o trem da alegria não vem,
o riso não vem,
não vem a utopia da faixa presidencial
e agora, José?
Sua falsa palavra,
seu instante de delírio,
sua sede de poder,
sua falta de escrúpulos,
sua imprensa marrom,
sua lavra de ouro (4 milhões),
seu terno de vidro, sua cara de pau,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com as calças na mão
queria ser presidente,
não existe presidência;
queria morrer na mar de Minas,
mas o mar de Minas nunca existiu;
queria ir para o Palácio da Alvorada,
palácio da Alvorada não há mais.
José, e agora?
Se você tocasse
a valsa do adeus,
se você sumisse,
se você evaporasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é osso duro de roer, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-papão,
sem teogonia,
sem cargo político
para se encostar,
sem Paulo Preto
que fuja a galope,
só com o apoio da oligarquia,
dos ecochatos, da Ku Klux Klan Verde-amarela,
da Mídia Golpista e do Vatucano,
você marcha, José!
José, para onde?
Prefeitura de Sampa em 2012?
Quem sabe?
(livre adaptação do poema José , de Carlos Drummond de Andrade, publicado na Carta Capital)

quinta-feira, outubro 14, 2010

A hipocrisia Serra

“Monica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor”, afirma ex-aluna da mulher de presidenciável

retirado de :

http://correiodobrasil.com.br/monica-serra-ja-fez-um-aborto-e-sou-solidaria-a-sua-dor-afirma-ex-aluna-da-mulher-de-presidenciavel/185824/

O desempenho do presidenciável tucano, José Serra, no debate do último domingo pela TV Bandeirantes, foi a gota d’água para uma eleitora brasileira. O silêncio do candidato diante da reclamação formulada pela adversária, Dilma Rousseff (PT) – de que fora acusada pela mulher dele, a ex-bailarina e psicoterapeuta Sylvia Monica Allende Serra, de “matar criancinhas” –, causou indignação em Sheila Canevacci Ribeiro, a ponto de levá-la até sua página em uma rede social, onde escreveu um desabafo que tende a abalar o argumento do postulante ao Palácio do Planalto acerca do tema que divide o país, no segundo turno das eleições. A coreógrafa Sheila Ribeiro relata, em um depoimento emocionado, que a ex-professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Monica Serra relatou às alunas da turma de 1992, em sala de aula, que foi levada a fazer um aborto “no quarto mês de gravidez”.

Em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, na noite desta segunda-feira, Sheila deixa claro que não era partidária de Dilma ou de Serra no primeiro turno: “Votei no Plínio (de Arruda Sampaio)”, declara. Da mesma forma, esclarece ser apenas uma eleitora, com cidadania brasileira e canadense, que repudiou o ambiente de hipocrisia conduzido pelo candidato da aliança de direita, ao criminalizar um procedimento cirúrgico a que milhões de brasileiras são levadas a realizar em algum momento da vida. Sheila, durante a entrevista, lembra que no Canadá este é um serviço prestado em clínicas e hospitais do Estado, como forma de evitar a morte das mulheres que precisam recorrer à medida “drástica e contundente”, como fez questão de frisar.

No texto, intitulado “Respeitemos a dor de Mônica Serra”, Sheila Ribeiro repete a pergunta de Dilma, que ficou sem resposta:

– Se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

Leia o texto, na íntegra:

Respeitemos a dor de Mônica Serra

“Meu nome é Sheila Ribeiro e trabalho como artista no Brasil. Sou bailarina e ex-estudante da Unicamp onde fui aluna de Mônica Serra.

“Aqui venho deixar a minha indignação no posicionamento escorregadio de José Serra, que no debate de ontem (domingo), fazia perguntas com o intuito de fazer sua campanha na réplica, não dialogando em nenhum momento com a candidata Dilma Roussef.

“Achei impressionante que o candidato Serra evita tocar no assunto da descriminalização do aborto, evitando assim falar de saúde pública e de respeitar tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Mônica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor.

“Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de quatro meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois que seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável. Aqui está a prova de que o aborto é uma situação terrível, triste, para a mulher e para o casal, e por isso não deve ser crime, pois tantas são as situações complexas que levam uma mulher a passar por essa situação difícil. Ninguém gosta de fazer um aborto, assim como o casal Serra imagino não ter gostado. A educação sobre a contracepção deve ser máxima para que evitemos essa dor para a mulher e para o Estado.

“Assim, repito a pergunta corajosa de minha presidente, Dilma Roussef, que enfrenta a saúde pública cara a cara com ela: se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

“Nesse sentido, devemos prender Mônica Serra caso seu marido seja eleito presidente?

“Pelo Brasil solidário e transparente que quero, sem ameaças, sem desmerecimento da fala do outro, com diálogo e pelo respeito à dor calada de Mônica Serra,

“VOTO DILMA”, registra, em letras maiúsculas, no texto publicado em sua página no Facebook, nesta segunda-feira, às 10h24.

Reflexão

Diante da imediata repercussão de suas palavras, Sheila acrescentou em sua página um comentário no qual afirma ser favorável “à privacidade das pessoas”.

“Inclusive da minha. Quando uma pessoa é um personagem público, ela representa muitas coisas. Escrevi uma reflexão, depois de assistir a um debate televisivo onde a figura simbólica de Mõnica Serra surgiu. Ali uma incongruência: a pessoa que lutou na ditadura e que foi vítima de repressão como mulher (com evento trágico naquele caso, pois que nem sempre o aborto é trágico quando é legalizado e normalizado) versus a mulher que luta contra a descriminalização do aborto com as frases clássicas do “estão matando as criancinhas”. Quem a Mônica Serra estaria escolhendo ser enquanto pessoa simbólica? Se é que tem escolha – foi minha pergunta.

“Muitas pessoas públicas servem-se de suas histórias como bandeiras pelos direitos humanos ou, ainda, ficam quietas quando não querem usá-las. Por isso escrevi ‘respeitemos a dor’. Para mim é: respeitemos que muita gente já lutou pra que o voto existisse e que para que cada um pudesse votar, inclusive nulo; muita monica-serra-pessoa já sofreu no Brasil e em outros países na repressão para que outras mulheres pudessem escolher o que fazer com seus corpos e muitas monicas-serras simbólicas já impediram que o aborto fosse descriminalizado.

“Muitas pessoas já foram lapidadas em praça pública por adultério e muitas outras lutaram pra que a sexualidade de cada um seja algo de direito. A minha questão é: uma pessoa que é lapidada em praça pública não faz campanha pela lapidação, então respeitemos sua dor, algo está errado. Se uma pessoa pública conta em público que foi lapidada, que foi vítima, que foi torturada, que sofreu, por motivos de repressão, esse assunto deve ser respeitadíssimo.

“Vinte por cento da população fazem abortos e esses 20% tem o direito absoluto de ter sua privacidade, no entanto quando decidem mostrar-se publicamente não entendo que estes assimilem-se ao repressor”, acrescentou a ex-aluna de Monica Serra, que teria relatado a experiência, traumática, às alunas da turma de 1992.

Exílio e ditadura

Sheila diz ainda, em seu depoimento, que “muitas pessoas querem ‘explicações” para o fato de ela declarar, publicamente, o que a ex-professora disse às suas alunas na Unicamp.

“Eu sou apenas uma pessoa, uma mulher, uma cidadã que viu um debate e que se assustou, se indignou e colocou seu ponto de vista na internet. Ao ver Dilma dizendo que Mônica falou algo sobre ‘matar criancinhas’, duvidei.

“Duvidei porque fui sua aluna e compartilhei do que ela contou, publicamente (que havia feito um aborto), em sala de aula. Eu me disse que uma pessoa que divide sua dor sobre o aborto, sobre o exílio e sobre a ditadura, não diria nunca uma atrocidade dessas, mesmo sendo da oposição. Essa afirmação de ‘criancinhas assassinadas’ é do nível do ‘comunista come criancinha’. A Mônica Serra é mais classe do que isso (e, aliás, gosto muito dela, apesar do Serra não ser meu candidato).

“Por isso, deixei claro o meu posicionamento que o aborto não pode ser considerado um crime – como não é na Itália, na França e em outros países. Nesse sentido não quero ser usada como uma ‘denunciadora de um ‘delito’. Ao contrário, estou relembrando na internet, aos meus amigos de FB (Facebook), que o aborto é uma questão complexa que envolve a todos e que, como nos países decentes, não pode ser considerado um crime – mas deve ser enfrentado como assunto de saúde.

“O Brasil tem muitos assuntos a serem tratados, vamos tratá-los com o carinho e com a delicadeza que merece.

“Agora volto ao meu trabalho”, conclui Sheila o seu relato na página da rede social.

Sem resposta

Diante da afirmativa da ex-aluna de Sylvia Monica Serra, o Correio do Brasil procurou pelo candidato, no Twitter, às 23h57:

“@joseserra_ Sr. candidato Serra. Recebemos a informação de que Dnª Monica Serra teria feito um aborto. O sr. tem como repercutir isso?”

Da mesma forma, foi encaminhado um e-mail à assessoria de imprensa e, posteriormente, um contato telefônico com o comitê de Serra, em São Paulo. Até o fechamento desta matéria, às 1239h desta quarta-feira, porém, não houve qualquer resposta à pergunta. O candidato, a exemplo do debate com a candidata petista, novamente optou pelo silêncio.

terça-feira, outubro 12, 2010

Movimentos pela legalização do aborto respondem ao uso eleitoral do debate

NOTA PÚBLICO DO ABORTO

Mais uma vez, em contextos de disputa eleitoral, o patriarcado por meio de seus representantes na classe política conservadora, explora as necessidades do povo. Mais uma vez é sobre o corpo das mulheres e contra a autonomia das mulheres que a disputa se faz. Ainda hoje e apesar da Lei do Planejamento Familiar de 1996, pratica-se a troca de votos por laqueadura de trompas. Apela-se para a mentira e o terrorismo para combater a luta por direitos humanos para as mulheres e para chantangear candidaturas.

Desde os anos 1980, o movimento de mulheres adota o 28 de setembro como o Dia Latino-Americano Pela Descriminalização do Aborto. Este ano, nessa data, foi lançada a Plataforma para Legalização do Aborto no Brasil. Na Plataforma estão colocados os termos do debate que queremos fazer com a
sociedade brasileira, os movimentos sociais, as associações de classe, os partidos, parlamentares, o Poder Judiciário e o Executivo. Queremos que o debate seja feito de forma politizada e não moralista.
Repudiamos o uso político da questão do aborto, causa tão complexa e importante para a vida das mulheres. Repudiamos as lideranças religiosas que manipulam informações, aterrorizam e mentem para seus fiéis em favor da ampliação de seu próprio poder político.

Exigimos respeito à dignidade das mulheres! Queremos um ambiente democrático para fazer o debate franco e informado sobre o direito à maternidade e à auto-determinação reprodutiva para todas as mulheres, sem discriminação de classe ou de cor.


Nota de Repúdio contra o uso eleitoral do debate sobre aborto


FRENTE NACIONAL CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES
E PELA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO
Em, 08 de outubro de 2010.
Nenhuma mulher deve ser presa, punida, perseguida,
maltratada, ou humilhada por ter feito um aborto.

quinta-feira, maio 27, 2010

Mulher morre na sala de parto depois que teve pedido de aborto negado




Depois da morte, a ação


Dor de cabeça no Ministério Público Estadual. Mulher morre no momento do parto depois de ter seu direito a um “abortamento assistido” negado.
E agora, José?
Uma mulher que teve uma gestação de feto com Displasia Esquelética Letal Tanatofórica, uma doença que é incompatível com a vida extra-uterina (a criança não sobreviveria depois de nascer) pediu, via Ministério Público, para fazer um abortamento assistido e lhe foi negado o direito.
Resultado: Na hora do parto, a mulher morreu.

De novo, não!

Agora, para que se evitem novos casos desse tipo, a Promotora de Saúde Iara Pinheiro quer que a Maternidade Januário Cicco, da UFRN, explique melhor as deformações fetais que podem levar risco de morte às mães para que juízes possam se servir de meios mais científicos para tomarem suas decisões.
A MEJC ficou de elaborar parecer médico sobre outras situações de deformidades do feto que sejam incompatíveis com a vida extrauterina e gerem riscos agravados à gestante.
Aborto: a vida de quem está em jogo?
Esse caso mostra mais uma vez a situação de vulnerabilidade que as mulheres brasileiras estão em função de uma legislação que criminaliza o aborto e coloca a vida da mulher em segundo plano influenciada por concepções político-religiososas em um estado que se diz laico. Enquanto o aborto não for legalizado mais mulheres continuarão morrendo pela desassistência à sua saúde e o aborto inseguro continuará sendo uma das principais causas de morte entre mulheres grávidas.
Adaptado do site do grupo Católicas pelo direito do decidir ( www.catolicasonline.org.br)

segunda-feira, março 22, 2010

A mídia não gosta de mulher


Seguiremos em marcha até que todas sejamos vistas!


Nestes últimos dias aconteceu talvez uma das maiores mobilizações na esquerda que seria possível nestes tempos de descenso e considerando ser um ano eleitoral. Cerca de 2000 mulheres marcharam de campinas a são paulo sob a organização da Marcha Mundial das Mulheres, mas mostrando uma pluralidade e uma vitalidade impressinante. As caminhadas aconteciam pela manhã durante a tarde ocorria momento de formação política, já que muitas vinham de seus estados para um primeiro contato com muitas pautas do feminismo como a questão do aborto. Apesar disso, a grande mídia de direita e por que não dizer misógina, ignorou em seus noticiários propositadamente, o que fica clara a tomada de posição quando a globo noticia dois dias depois da chegada da marcha em são paulo uma manifestação contra o aborto. Mas deixe estar, como diz uma das palavras de ordem da marcha: se cuida, se cuida, se cuida, seu machista, a américa latina vai ser toda feminista!

domingo, dezembro 13, 2009

Ato, ato, ato, cada um no seu quadrado


Ato médico, demais atos da saúde e outras idiotices corporativas


Este final de 2009 trás de de volta um defunto há algum tempo esquecido. E como toda carne morta, quanto mais o tempo passa, mais fede. O velho debate sobre o ato médico. Há algum tempo eu entrava na faculdade de medicina e me deparo na aula de bioética com uma cartilha tentando nos convencer e à sociedade sobre a legitimidade do projeto de lei. Naquele momento, até pelo texto do projeto ser bem ruim nem pestanejei em ser contra. Afinal, algo que todos os meus colegas e professores eram unânimes em apoiar não podia ser boa coisa. Mas pra não falar antes de pensar, mesmo que por pensar sejamos criticados assim mesmo, fui ler e estudar sobre o ato médico e os demais atos de profissões da saúde, ou melhor dizendo, sobre as leis que regulamentam a atuação profissional de cada uma. Logo chama atenção que a maioria delas é anterior ao surgimento do SUS. Uma, como a de fisio, ainda evoca o AI-5 em seu texto, não negando o seu contexto de surgimento. Eu tinha então o seguinte raciocínio: muito barulho por quase nada. Se cada profissão já disse o que faz em sua legislação, o que sobrou, é do médico, goste ou não. Nem uns teriam motivo pra dizer que com a nova lei iam perder espaço, pois teoricamente não poderiam ir além do que seus preveem, nem os médicos poderiam espernear para retirar o que já está previsto nas demais leis. Como uma pizza de 8 pedaços para oito pessoas. Se 7 já comeram, não há porque debater se o último deve comer meio ou 2 pedaços. Mas parece que poucos viam o óbvio. O assunto ficou adormecido durante todo o meu curso de medicina e agora, com o ato médico aprovado na câmara, volta com força total. Até a cartilha reeditaram! Verdade que o texto do ato está um pouco melhor, mas difícil saber nessa disputa quem erra mais. Os demais profissionais, conseguiram em talvez uns cem anos de especialização da área da saúde, fazer o que os médicos levaram muito séculos para conseguir: preocupar-se muito mais com a sua fatia na pizza chamado mercado que com aefetividade no trabalho em saúde. Nunca vi tanta asneira dos dois lados. De quererem provar que o médico não sabe de nada ao comparar a prescrição de medicamentos com a de fisioterapia a os médicos, por sua vez, negarem o dignóstico funcional feito pelos fisioterapeutas. São 14 profissões falando do que não conhecem, pois no curso de medicina ninguém sabe o que um biomédico estuda e no curso de psicologia também não é dito o que se estuda em medicina. Como não se conversam, só quem se lasca é o paciente. Fanatismos dos dois lados, ninguém quer fazer o racional que seria, diante de tanto avanço no conhecimento e saúde e a mudança na assistência à saúde do Brasil, admitir o quão ultrapassado é esse conjunto de monólogos e revogar todos os atos anteriores ao SUS, discutindo conjuntamente as diversas categorias e a população uma nova regulamentação para a saúde, definido o que é compartilhado e o que é nuclear de cada profissãoe qual a responsabilidade de cada um quando algo dá errado (pois essa responsabilidade ninguém quer dividir com o médico). Antes disso é preciso ter a humildade de perguntar ao outro o que sabe e dizer o que sabemos, afim de ver como todos juntos podem construir a saúde, fugindo à lógica da multidisciplinaridade semelhante a um alinha de produção: cada um vai e coloca a sua pecinha no pacienet que passa à sua frente - um remédio, uma dieta, um alongamento, uma bolsa-família, um número de prontuário - e no final ninguém sabe exatamente o que se tem, nem mesmo o próprio paciente.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

A lista

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

Oswaldo Montenegro

terça-feira, novembro 03, 2009

Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos

domingo, agosto 30, 2009

Era-me mais fácil imaginar um mundo sem criador do que um criador carregado com todas as contradições do mundo.

Simone de Beauvoir

segunda-feira, agosto 24, 2009

Mulheres golpistas, mulheres golpeadas

por peruano última modificação 20/08/2009 11:39


CRÔNICA Outro dia de julho no eterno junho negro de Honduras

Melissa Merlo No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance. Umas receberam poder, outras, dinheiro, e outras, as ingênuas, receberam santas indulgências.Se vestem de branco para satirizarem o camponês e o pobre enegrecido do trabalho. As caras curtidas, os descalços, os professores que caminham diante de suas pulcras casas lhes provocam náuseas, e elas, brancas e pulcras como suas casas, expelem sapos e cobras contra os que lutam por ser livres.
Elas, as de branco, estão presas em suas lindas casas. Oprimidas por pais, noivos, esposos, amantes ou filhos. Gaiolas de ouro em pleno século 21. A pouca liberdade que conhecem é a de se vestir de branco, jeans e sportshoes, alisar os cabelos para que combinem com um lindo chapéu, pintar suas unhas acrílicas com motivos brancos, escolher a jewlery do dia, um toque discreto de 212 forwomen, e preparar uma backpack com a garrafinha de Evian, um pacotinho de light cookies, o glossy, uma foodcard e um lencinho para o suor, que descobriram que destrói a maquiagem.
Com a checklist terminada, vestem suas empregadas de branco, branco perfeito em caso de emergência, põem seus óculos Dior e saem a sussurrar pela paz e a democracia. Duas horas são suficientes nesse calor sufocante. Mas, por sorte, estão perto dos fastfood.
Com um iced tea e um pouquinho no airconditioner, o corpo terá de novo seu frescor habitual. Sua ideia de paz voa pelos ares com a velocidade de um projétil, cai ferida no pavimento e explode em uma espécie de gás, branco, claro, que incompreensivelmente faz correr a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com trapos sujos que as faz tossir e se asfixiarem como doentes.
A paz implodiu, hora de ir para casa. No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance.
Umas receberam fome, outras, insultos, e outras, as mais valentes, receberam golpes brutais. Vestem- se de cores para satirizar a chuva, o sol inclemente, a ignorância. As caras brancas, os bem-vestidos e os empresários que dirigem diante de suas casas curtidas lhes provocam pena, e elas, coloridas e curtidas como suas casas, expelem gritos de liberdade contra os que lutam por humilhá- las.
Elas, as coloridas, estão livres em suas casas coloridas. Apoiadas por pais, noivos, esposos, amantes, filhos, ou por ninguém. Casas abertas em pleno século 21.
A liberdade que conhecem é a de se vestir de cores, yin e tênis, enfiar os cabelos dentro de um chapéu, esconder suas unhas de pontas descascadas cheirando a comida caseira, escolher as bijuterias do dia, uma boa borrifada de uma imitação de 212 para mulheres, preparar uma mochila com a garrafa de água, um saco de sanduíche, o estojinho de maquiagem, uns 50 lempiras em dinheiro e um lenço molhado, caso joguem gases lacrimogêneos. Com tudo na mochila checado, vestem seus filhos com cores, roupa muito cômoda em caso de emergência, põem seus óculos imitações da Dior e saem a gritar pela liberdade e pela pátria. Doze horas são suficientes nesse calor sufocante.
Mas, por sorte, estão perto dos pronto-socorros. Com uma horchata e um pouquinho na sombra, o corpo terá de novo sua energia habitual. Sua ideia de paz caminha pela rua ao ritmo de tambores, enérgica, avança pelo pavimento e se espalha em uma espécie de grafite colorido, claro, que incompreensivelmente faz retroceder a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com as mãos, e as faz se meterem em seus carros e se esconderem temerosas. A liberdade implodiu, hora de seguir adiante.Tradução: Igor Ojeda. O original, em espanhol, encontra-se em http://alainet.org/active/32140

terça-feira, junho 09, 2009

domingo, junho 07, 2009

A lei está contra ela

Essa foi a digníssima frase de um professor ao negar o estudo domiciliar a uma estudante do curso de medicina grávida de seis meses sem condições de concluir as últimas 3 semanas do seu curso por contrações incoercíveis. Resta-lhe o "direito" de trancar o curso e aguarda a filha nascer, o resguardo e então, quase ao final do ano, poder aos 25 anos trabalhar para sustentar sua filha. este é todo o direito que a "lei" reserva ás mulheres que por ventura engravidem ao longo do curso médico. Decidir entre a gravidez e o curso. Quantos homens trancam o curso por que são pais? Mesmo hoje a medicina tendo se "feminilizado", com muito mais mulheres médicas ( não ficamso mais só na enfermagem), parece que as leis continuam não sendo feitas por nós. Continuamos crucificadas aos nossos úteros.

quinta-feira, maio 07, 2009

A gripe dos procos e a mentira dos homens

Publicado no Jornal do Brasil

O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.
Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos. A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país. É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata.
O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.
Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.
As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada "ação social". Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.
O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.
Mauro Santayana é jornalista

sexta-feira, março 20, 2009

A FINALIDADE DA CIÊNCIA

Bertold Brecht

Entretanto, seremos ainda cientistas,
se nos desligarmos da multidão?
Os movimentos dos corpos celestes
se tornaram mais claros;
mas os movimentos dos poderosos continuam
imprevisíveis para os seus povos;
A luta pela mensuração do céu
foi ganha através da dúvida;

e a credulidade da dona-de-casa romana fará que
ela perca sempre de novo a sua luta pelo leite.
A ciência, Sarti, está ligada às duas lutas.

Enquanto tropeça dentro de sua bruma
luminosa de superstições e afirmações antigas,
ignorante demais para desenvolver
plenamente as suas forças,
a humanidade não será capaz de desenvolver
as forças da natureza que vocês descobrem.

Vocês trabalham para quê?
Eu sustento que a única finalidade da ciência
está em aliviar a canseira da existência humana.

E se os cientistas,
intimidados pela prepotência dos poderosos,
acham que basta amontoar saber,
por amor do saber,
a ciência pode ser transformada em aleijão,
e as suas novas máquinas serão novas aflições,nada mais.

Com o tempo,
é possível que vocês descubram
tudo o que haja por descobrir,
e ainda assim o seu avanço
há de ser apenas um avanço
para longe da humanidade.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Reflexões sobre a Crise da Saúde em Natal






Natal, 18 de fevereiro de 2009

Esse texto nasce em meio à situação de crise da saúde em Natal desencadeada pela renovação de contratos de cooperativas médicas pelo SUS, contestada pelo Ministério Público e por diversos setores organizados da sociedade. Busca fundamentalmente refletir em torno de quais são os reais inimigos em tudo isso, já que em diversos espaços os setores de contestação a tal quadro parecem reduzir o debate à disputa “médicos versus demais profissionais de saúde”, sem perceber os malefícios disso.


As ferramentas organizativas da classe trabalhadora e sua manipulação

A classe trabalhadora, ao longo de sua batalha contra as classes dominantes, buscou organizar-se de diversos modos, e os sindicatos e cooperativas são exemplos deste tipo de ferramentas, gestadas desde o século XIX na época da expansão do capitalismo industrial. Tais experiências já continham o germe de organização da sociedade que superaria a capitalista: a sociedade socialista e a comunista, baseada na cooperação e na solidariedade entre os seres humanos. Tratam-se, portanto, de importantes instrumentos organizativos para os sujeitos históricos da nova sociedade no enfrentamento ao modo de produção atual.
Contudo, o desenvolvimento histórico do Capital até os dias de hoje foi capaz de se apropriar e manipular tais instrumentos no sentido de manutenção e até de fortalecimento do status quo. Exemplo disso são os chamados “sindicatos-de- empresa” ou “sindicatos-casa” , gestados como uma das estratégias que compõe hoje o sistema organizacional de produção conhecido como “toyotismo” no sentido de eliminar os sindicatos de cunho classista, combativos e que causavam muitos entraves ao sistema. O toyotismo se expande na década de 1970 em meio à crise do fordismo e chega ao Brasil no início da década de 1990 junto com a onda neoliberal, fragilizando a luta da classe trabalhadora no país.
Assim como os sindicatos, as cooperativas também se tornaram estratégias de manipulação e foram apropriadas pela burguesia, respondendo a seus interesses. Isso implica em entender o combate à crise da saúde em Natal não no sentido de criminalização da ferramenta organizativa conhecida como cooperativa, mas ao modo como tal instrumento vem sendo manipulado por elementos elitistas no sentido de enfraquecer o sistema público de saúde, ampliando sua dependência e seus repasses financeiros ao setor privado.

A proletarização médica e a manutenção do ideário liberal

Com o avanço do Capital durante o pós-guerra para outras áreas da atividade humana, no caso a saúde, os médicos, que antes constituíam profissionais liberais vendendo diretamente seus serviços sem intermédio de nenhum outro agente (sem salário, portanto), passam a sofrer um processo de proletarização intenso, ou seja, passam a ter que vender sua força de trabalho para setores do complexo médico-hospitalar e de seguradoras privadas, compondo a “peça” fundamental para fazer girar a fórmula do Capital na área da saúde.
Apesar de em alguns momentos essa categoria ter se aproximado e se identificado com a situação de outros profissionais, como foi o caso do movimento Renovação Médica (que ocupou diversas entidades médicas em fins da década de 1970 e nos anos de 1980 e teve extrema importância na condução do processo de reforma sanitária que culminou no SUS) tal categoria, de modo geral, sempre esteve muito mais identificada com o ideário liberal, fortalecido ainda mais com o avanço do neoliberalismo no Brasil a partir de 1990 e levando a maioria dos médicos a ver na aliança com o mercado o caminho para a manutenção de um padrão de vida elevado em relação à maioria da população.
Aqui se faz importante, para seguir a discussão, um aprofundamento em torno do fenômeno classe social e suas múltiplas determinações, a saber:
1) Posição diante da propriedade - Em relação à propriedade, têm-se os conceitos de burguesia e proletariado, como aqueles que detêm a propriedade dos meios de produção e os que vendem sua força de trabalho na sociedade capitalista.
2) Posição no interior das relações sociais de produção – somente o posicionamento do sujeito diante da propriedade é insuficiente, pois assim, poderíamos dizer que um camponês, que em si é um proprietário de terra, seria, então, um capitalista ou pequeno burguês. Porém, a forma como um camponês e um latifundiário exploram a renda da terra é diferente e garante posições e funções sociais diferenciadas. Isso implica que analisemos mais que as simples relações de propriedade, mas as relações sociais que se estabelecem, uma vez que a classe é um conceito que não pode ser definido pela análise abstraída de um grupo social; ao contrário, só se revela na relação com outras classes.
3) A consciência de classe - dimensão subjetiva, da consciência, é também determinante para configurarmos aquilo que definimos como classe. Assim, um grupo pode ser de assalariados, por sua posição no interior das relações sociais, portanto, não-proprietários de meios de produção, porém atuam e pensam como burgueses, se somam ao partido burguês nas lutas concretas da história e se dispõem a representar essa classe se uma oportunidade lhe apresentar.

Esse último elemento tem importância central na atual discussão. Apesar dos resultados apontados por pesquisas, como a realizada pelo Conselho Federal de Medicina em 2004 que revelou que, na época, 52% dos médicos afirmaram possuir renda menor do que US$ 2.000 (menos que R$ 5.000), percentual que era de 45% em 1996; apesar dessa clara desvalorização profissional e precarização do trabalho médico, essa categoria ainda oscila, em virtude de sua posição social enquanto setor médio ou pequeno-burguê s, para o lado das classes dominantes, não se identificando enquanto classe trabalhadora. É importante ter isso sempre em mente para não se cair em posições “trabalhistas” , porém esse cuidado ainda não consegue responder à complexidade em que está envolvida essa categoria.
De fato, nos últimos anos o cenário de trabalho médico vem mudando drasticamente. A intensa proliferação de escolas médicas no país (que passou de cerca de 80 no início da década de 1990 para 176 segundo os últimos dados de 2008 - mais escolas do que na China!) gerou uma enorme massa de trabalhadores que, não encontrando o espaço dado antigamente no mercado, viram seus salários e rendimentos diminuírem ao longo desses anos. Além disso, o abismo entre o número de médicos formados no país anualmente e a quantidades de vagas em residência médica (um déficit de quase quatro mil vagas anuais) contribui ainda mais para a pouca capacitação técnica e, assim, a desvalorização profissional.
Nesse quadro, contudo, viu-se a ascensão de determinadas especialidades médicas, que compondo verdadeiros cartéis no mercado, ganharam um poder muito maior de pressão e negociação de contratos (como é o caso dos neurocirurgiõ es, anestesistas, neonatologistas e ortopedistas) . Nesse processo de estratificação da categoria, gerou-se um quadro complexo de relações sociais em que muitos mantêm dois ou mais vínculos empregatícios, médicos empregam em clínicas privadas outros médicos, empregadores também vendem sua força de trabalho para grandes corporações e seguradoras, a maioria trabalha tanto no setor público quanto no privado, etc. Em virtude disso, e a despeito da crescente e cada vez mais patente heterogeneizaçã o da categoria médica gerando “hierarquias de especialidades” , o corporativismo médico ainda se sustenta como elemento unificador da categoria, sempre alimentando a idéia de que a “classe” ou a “casta” médica deve-se manter unida frente à proletarização, servindo como meio de manobra ideológica para que determinados interesses de classe burgueses de certos médicos ligados ao Capital ou às suas representações (DEM, PSDB, PMDB, etc.) encontre sempre o eco no senso-comum composto pelos outros médicos, determinando a freqüente aliança com o mercado.

O sistema de saúde: a omissão pertinente

Colocar, assim, a questão do ponto de vista classista garante que se perceba que o real inimigo de um sistema de saúde público, gratuito e de qualidade não são os médicos em si, mas os interesses do grande Capital que ganha espaço e se manifesta também através desta categoria, manipulando- a.
Outro aspecto fundamental é compreender o que se passa na área da saúde atualmente, sem temer a crítica em torno da estratégia do SUS:
A saúde vem sendo profundamente reformada pelo Capital nos últimos anos. Restrição de recursos, precarização dos empregos, projetos de OS’s (Organizações Sociais), OSCIP’s (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público), Fundações Estatais de Direito Privado, avanço das seguradoras de saúde, das cooperativas médicas, são todas políticas gestadas por organismos internacionais do Capital, por elites dentro da organização do capitalismo na saúde, e pela intelectualidade que não consegue mais visualizar outro horizonte além da perspectiva da “gestão do possível”, tendo por isto a perspectiva ou o efeito de privatização dos serviços de saúde na América Latina. É perceptível, como ao longo desses anos, o público se tornou complementar ao privado e não o seu oposto, como prevê a Constituição. O Sistema Público de Saúde infelizmente na prática não é universal, é para pobre, para quem não tem condições de pagar um plano de saúde. (SEMINÁRIO LIVRE PELA SAÚDE).

Definitivamente, o SUS perdeu seu caráter de ferramenta alavancadora dentro de um horizonte estratégico socialista, conforme concebido na década de 1980, para se tornar o maior consumidor de indústrias farmacêuticas e financiador do complexo médico-hospitalar. Eis porque é freqüente vermos nas câmaras e no senado a defesa de mais verbas para a saúde por parte de bancadas compostas por representações burguesas, já que isso fomenta ainda mais esses setores privados. O voltar-se para o sistema público das cooperativas médicas, surgidas para barganhar no mercado privado melhores rendimentos para seus cooperados, se explica por isso: garantia constante de contratação, o que é limitado no campo privado pela restrição de expansão deste frente ao baixo poder aquisitivo da população. Rosa Luxemburgo já dizia acerca do cooperativismo em Reforma ou Revolução?: “Só tendo um mercado, um círculo constante de consumidores, garantido de antemão, pode ela atingir esse alvo. Justamente a cooperativa de consumo lhe fornece esse meio”. E esse círculo constante de consumidores é garantido para as cooperativas médicas através do SUS.
O constante e progressivo amoldamento do SUS a interesses privados tornou-o totalmente dependente deles. E é importante que se ressalte a participação de muitos elementos médicos burgueses em tudo isso, alimentando uma relação público-privada promíscua a partir da desresponsabilizaçã o estatal na área e da precarização do próprio trabalho médico para garantir, entre outras, a necessidade de existência de terceirizações, através da contratação de clínicas/hospitais privados ou de cooperativas médicas, as quais funcionam como verdadeiras empresas privadas.
O discurso manifesto pelo atual presidente do sindicato dos médicos SINMED-RN (também presidente da Associação Médica do RN, candidato à presidência da UNIMED e cooperado da COOPANEST – Cooperativa de Anestesiologistas) de que a organização dos médicos em cooperativas se faz necessária devido à falta de perspectivas profissionais e precarização encontrada no SUS, esconde que tal precarização tem sim uma ativa participação de médicos ligados à burguesia em tudo isso. Não é à toa que Natal e o Rio Grande do Norte enfrentem hoje um verdadeiro caos na saúde pública mesmo quando há três anos quase 30% das prefeituras do estado eram ocupadas por profissionais médicos. Mesmo quando a Secretaria de Saúde do estado ou do município esteve por diversas vezes na mão de médicos nos últimos anos. Isso coloca em evidência o caráter de classe que a atual situação nos apresenta e desvela o discurso corporativista falacioso de que a situação dos médicos no sistema público se deve à atuação de burocratas que não conhecem o cotidiano da medicina e da saúde, de que seria diferente se a categoria médica tivesse condições de atuar nesse sistema.
A omissão do Estado na “política de recursos humanos”, não realizando concursos públicos ou realizando-os com salários vexaminosos, contou e ainda conta com a complacência de elementos médicos burgueses, que vêem nisso um campo aberto e pertinente para a proliferação de iniciativas privatistas, destacando-se hoje a atuação das cooperativas médicas. Essas, por sua vez, vêm sistematicamente impondo pressão ao sistema de saúde na forma de contratações ilegais, já que não se dá por concurso público, mas sim de modo temporário e renovado a cada seis meses (sendo, portanto, um “temporário permanente”); na realização de pagamento duplo, já que serviços contratados a hospitais privados também exigem o pagamento dos profissionais do próprio hospital, isentando-o desse encargo; e no duplo vínculo de muitos cooperados, que também compõem o quadro do próprio sistema público e recebem via cooperativas.

Conclusão

Pelo discutido acima, a crise da saúde em Natal deve ser concebida sob o prisma da luta de classes. Somente assim podemos perceber os reais interesses envolvidos por detrás da questão das cooperativas médicas, sem cairmos na cilada de reduzir o debate a uma escalada contra a categoria médica per si. Uma atitude dessa, só levaria ao reforço da estratégia de nossos inimigos a partir da manipulação via corporativismo, fechando canais de diálogo com elementos médicos insatisfeitos com esse contexto real de precarização e conduzindo-os a se fecharem em torno de sua corporação.
Apesar de extremamente fechada e conservadora, essa categoria é hoje cada vez mais estratificada e heterogênea, e, bem ou mal, a atuação do grupo que está atualmente à frente das entidades médicas tem sido vista com maus olhos pela maioria da população, gerando um desgaste da figura do profissional médico em Natal e uma insatisfação por parte de alguns deles diante dessa situação de descrédito, sendo possível a mobilização de determinados setores para nosso campo.
Portanto, pensar num enfrentamento ao Capital na saúde perpassa também a mobilização desses grupos insatisfeitos, tendo como base a mobilização popular em defesa da saúde pública.



Henrique Gonçalves Dantas de Medeiros
Estudante do 9º período do curso de medicina da UFRN

BIBLIOGRAFIA:
01. OLIVEIRA, Eurenice. Toyotismo no Brasil: desencantamento da fábrica, envolvimento e resistência. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
02. IASI, Mauro Luís. Ensaios sobre consciência e emancipação. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
03. SEMINÁRIO LIVRE PELA SAÚDE, 1., 2008, Natal. Carta de Natal. Natal: 2008.
04. LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? São Paulo: Expressão Popular, 1999