domingo, agosto 30, 2009

Era-me mais fácil imaginar um mundo sem criador do que um criador carregado com todas as contradições do mundo.

Simone de Beauvoir

segunda-feira, agosto 24, 2009

Mulheres golpistas, mulheres golpeadas

por peruano última modificação 20/08/2009 11:39


CRÔNICA Outro dia de julho no eterno junho negro de Honduras

Melissa Merlo No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance. Umas receberam poder, outras, dinheiro, e outras, as ingênuas, receberam santas indulgências.Se vestem de branco para satirizarem o camponês e o pobre enegrecido do trabalho. As caras curtidas, os descalços, os professores que caminham diante de suas pulcras casas lhes provocam náuseas, e elas, brancas e pulcras como suas casas, expelem sapos e cobras contra os que lutam por ser livres.
Elas, as de branco, estão presas em suas lindas casas. Oprimidas por pais, noivos, esposos, amantes ou filhos. Gaiolas de ouro em pleno século 21. A pouca liberdade que conhecem é a de se vestir de branco, jeans e sportshoes, alisar os cabelos para que combinem com um lindo chapéu, pintar suas unhas acrílicas com motivos brancos, escolher a jewlery do dia, um toque discreto de 212 forwomen, e preparar uma backpack com a garrafinha de Evian, um pacotinho de light cookies, o glossy, uma foodcard e um lencinho para o suor, que descobriram que destrói a maquiagem.
Com a checklist terminada, vestem suas empregadas de branco, branco perfeito em caso de emergência, põem seus óculos Dior e saem a sussurrar pela paz e a democracia. Duas horas são suficientes nesse calor sufocante. Mas, por sorte, estão perto dos fastfood.
Com um iced tea e um pouquinho no airconditioner, o corpo terá de novo seu frescor habitual. Sua ideia de paz voa pelos ares com a velocidade de um projétil, cai ferida no pavimento e explode em uma espécie de gás, branco, claro, que incompreensivelmente faz correr a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com trapos sujos que as faz tossir e se asfixiarem como doentes.
A paz implodiu, hora de ir para casa. No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance.
Umas receberam fome, outras, insultos, e outras, as mais valentes, receberam golpes brutais. Vestem- se de cores para satirizar a chuva, o sol inclemente, a ignorância. As caras brancas, os bem-vestidos e os empresários que dirigem diante de suas casas curtidas lhes provocam pena, e elas, coloridas e curtidas como suas casas, expelem gritos de liberdade contra os que lutam por humilhá- las.
Elas, as coloridas, estão livres em suas casas coloridas. Apoiadas por pais, noivos, esposos, amantes, filhos, ou por ninguém. Casas abertas em pleno século 21.
A liberdade que conhecem é a de se vestir de cores, yin e tênis, enfiar os cabelos dentro de um chapéu, esconder suas unhas de pontas descascadas cheirando a comida caseira, escolher as bijuterias do dia, uma boa borrifada de uma imitação de 212 para mulheres, preparar uma mochila com a garrafa de água, um saco de sanduíche, o estojinho de maquiagem, uns 50 lempiras em dinheiro e um lenço molhado, caso joguem gases lacrimogêneos. Com tudo na mochila checado, vestem seus filhos com cores, roupa muito cômoda em caso de emergência, põem seus óculos imitações da Dior e saem a gritar pela liberdade e pela pátria. Doze horas são suficientes nesse calor sufocante.
Mas, por sorte, estão perto dos pronto-socorros. Com uma horchata e um pouquinho na sombra, o corpo terá de novo sua energia habitual. Sua ideia de paz caminha pela rua ao ritmo de tambores, enérgica, avança pelo pavimento e se espalha em uma espécie de grafite colorido, claro, que incompreensivelmente faz retroceder a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com as mãos, e as faz se meterem em seus carros e se esconderem temerosas. A liberdade implodiu, hora de seguir adiante.Tradução: Igor Ojeda. O original, em espanhol, encontra-se em http://alainet.org/active/32140

terça-feira, junho 09, 2009

domingo, junho 07, 2009

A lei está contra ela

Essa foi a digníssima frase de um professor ao negar o estudo domiciliar a uma estudante do curso de medicina grávida de seis meses sem condições de concluir as últimas 3 semanas do seu curso por contrações incoercíveis. Resta-lhe o "direito" de trancar o curso e aguarda a filha nascer, o resguardo e então, quase ao final do ano, poder aos 25 anos trabalhar para sustentar sua filha. este é todo o direito que a "lei" reserva ás mulheres que por ventura engravidem ao longo do curso médico. Decidir entre a gravidez e o curso. Quantos homens trancam o curso por que são pais? Mesmo hoje a medicina tendo se "feminilizado", com muito mais mulheres médicas ( não ficamso mais só na enfermagem), parece que as leis continuam não sendo feitas por nós. Continuamos crucificadas aos nossos úteros.

quinta-feira, maio 07, 2009

A gripe dos procos e a mentira dos homens

Publicado no Jornal do Brasil

O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.
Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos. A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país. É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata.
O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.
Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.
As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada "ação social". Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.
O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.
Mauro Santayana é jornalista

sexta-feira, março 20, 2009

A FINALIDADE DA CIÊNCIA

Bertold Brecht

Entretanto, seremos ainda cientistas,
se nos desligarmos da multidão?
Os movimentos dos corpos celestes
se tornaram mais claros;
mas os movimentos dos poderosos continuam
imprevisíveis para os seus povos;
A luta pela mensuração do céu
foi ganha através da dúvida;

e a credulidade da dona-de-casa romana fará que
ela perca sempre de novo a sua luta pelo leite.
A ciência, Sarti, está ligada às duas lutas.

Enquanto tropeça dentro de sua bruma
luminosa de superstições e afirmações antigas,
ignorante demais para desenvolver
plenamente as suas forças,
a humanidade não será capaz de desenvolver
as forças da natureza que vocês descobrem.

Vocês trabalham para quê?
Eu sustento que a única finalidade da ciência
está em aliviar a canseira da existência humana.

E se os cientistas,
intimidados pela prepotência dos poderosos,
acham que basta amontoar saber,
por amor do saber,
a ciência pode ser transformada em aleijão,
e as suas novas máquinas serão novas aflições,nada mais.

Com o tempo,
é possível que vocês descubram
tudo o que haja por descobrir,
e ainda assim o seu avanço
há de ser apenas um avanço
para longe da humanidade.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Reflexões sobre a Crise da Saúde em Natal






Natal, 18 de fevereiro de 2009

Esse texto nasce em meio à situação de crise da saúde em Natal desencadeada pela renovação de contratos de cooperativas médicas pelo SUS, contestada pelo Ministério Público e por diversos setores organizados da sociedade. Busca fundamentalmente refletir em torno de quais são os reais inimigos em tudo isso, já que em diversos espaços os setores de contestação a tal quadro parecem reduzir o debate à disputa “médicos versus demais profissionais de saúde”, sem perceber os malefícios disso.


As ferramentas organizativas da classe trabalhadora e sua manipulação

A classe trabalhadora, ao longo de sua batalha contra as classes dominantes, buscou organizar-se de diversos modos, e os sindicatos e cooperativas são exemplos deste tipo de ferramentas, gestadas desde o século XIX na época da expansão do capitalismo industrial. Tais experiências já continham o germe de organização da sociedade que superaria a capitalista: a sociedade socialista e a comunista, baseada na cooperação e na solidariedade entre os seres humanos. Tratam-se, portanto, de importantes instrumentos organizativos para os sujeitos históricos da nova sociedade no enfrentamento ao modo de produção atual.
Contudo, o desenvolvimento histórico do Capital até os dias de hoje foi capaz de se apropriar e manipular tais instrumentos no sentido de manutenção e até de fortalecimento do status quo. Exemplo disso são os chamados “sindicatos-de- empresa” ou “sindicatos-casa” , gestados como uma das estratégias que compõe hoje o sistema organizacional de produção conhecido como “toyotismo” no sentido de eliminar os sindicatos de cunho classista, combativos e que causavam muitos entraves ao sistema. O toyotismo se expande na década de 1970 em meio à crise do fordismo e chega ao Brasil no início da década de 1990 junto com a onda neoliberal, fragilizando a luta da classe trabalhadora no país.
Assim como os sindicatos, as cooperativas também se tornaram estratégias de manipulação e foram apropriadas pela burguesia, respondendo a seus interesses. Isso implica em entender o combate à crise da saúde em Natal não no sentido de criminalização da ferramenta organizativa conhecida como cooperativa, mas ao modo como tal instrumento vem sendo manipulado por elementos elitistas no sentido de enfraquecer o sistema público de saúde, ampliando sua dependência e seus repasses financeiros ao setor privado.

A proletarização médica e a manutenção do ideário liberal

Com o avanço do Capital durante o pós-guerra para outras áreas da atividade humana, no caso a saúde, os médicos, que antes constituíam profissionais liberais vendendo diretamente seus serviços sem intermédio de nenhum outro agente (sem salário, portanto), passam a sofrer um processo de proletarização intenso, ou seja, passam a ter que vender sua força de trabalho para setores do complexo médico-hospitalar e de seguradoras privadas, compondo a “peça” fundamental para fazer girar a fórmula do Capital na área da saúde.
Apesar de em alguns momentos essa categoria ter se aproximado e se identificado com a situação de outros profissionais, como foi o caso do movimento Renovação Médica (que ocupou diversas entidades médicas em fins da década de 1970 e nos anos de 1980 e teve extrema importância na condução do processo de reforma sanitária que culminou no SUS) tal categoria, de modo geral, sempre esteve muito mais identificada com o ideário liberal, fortalecido ainda mais com o avanço do neoliberalismo no Brasil a partir de 1990 e levando a maioria dos médicos a ver na aliança com o mercado o caminho para a manutenção de um padrão de vida elevado em relação à maioria da população.
Aqui se faz importante, para seguir a discussão, um aprofundamento em torno do fenômeno classe social e suas múltiplas determinações, a saber:
1) Posição diante da propriedade - Em relação à propriedade, têm-se os conceitos de burguesia e proletariado, como aqueles que detêm a propriedade dos meios de produção e os que vendem sua força de trabalho na sociedade capitalista.
2) Posição no interior das relações sociais de produção – somente o posicionamento do sujeito diante da propriedade é insuficiente, pois assim, poderíamos dizer que um camponês, que em si é um proprietário de terra, seria, então, um capitalista ou pequeno burguês. Porém, a forma como um camponês e um latifundiário exploram a renda da terra é diferente e garante posições e funções sociais diferenciadas. Isso implica que analisemos mais que as simples relações de propriedade, mas as relações sociais que se estabelecem, uma vez que a classe é um conceito que não pode ser definido pela análise abstraída de um grupo social; ao contrário, só se revela na relação com outras classes.
3) A consciência de classe - dimensão subjetiva, da consciência, é também determinante para configurarmos aquilo que definimos como classe. Assim, um grupo pode ser de assalariados, por sua posição no interior das relações sociais, portanto, não-proprietários de meios de produção, porém atuam e pensam como burgueses, se somam ao partido burguês nas lutas concretas da história e se dispõem a representar essa classe se uma oportunidade lhe apresentar.

Esse último elemento tem importância central na atual discussão. Apesar dos resultados apontados por pesquisas, como a realizada pelo Conselho Federal de Medicina em 2004 que revelou que, na época, 52% dos médicos afirmaram possuir renda menor do que US$ 2.000 (menos que R$ 5.000), percentual que era de 45% em 1996; apesar dessa clara desvalorização profissional e precarização do trabalho médico, essa categoria ainda oscila, em virtude de sua posição social enquanto setor médio ou pequeno-burguê s, para o lado das classes dominantes, não se identificando enquanto classe trabalhadora. É importante ter isso sempre em mente para não se cair em posições “trabalhistas” , porém esse cuidado ainda não consegue responder à complexidade em que está envolvida essa categoria.
De fato, nos últimos anos o cenário de trabalho médico vem mudando drasticamente. A intensa proliferação de escolas médicas no país (que passou de cerca de 80 no início da década de 1990 para 176 segundo os últimos dados de 2008 - mais escolas do que na China!) gerou uma enorme massa de trabalhadores que, não encontrando o espaço dado antigamente no mercado, viram seus salários e rendimentos diminuírem ao longo desses anos. Além disso, o abismo entre o número de médicos formados no país anualmente e a quantidades de vagas em residência médica (um déficit de quase quatro mil vagas anuais) contribui ainda mais para a pouca capacitação técnica e, assim, a desvalorização profissional.
Nesse quadro, contudo, viu-se a ascensão de determinadas especialidades médicas, que compondo verdadeiros cartéis no mercado, ganharam um poder muito maior de pressão e negociação de contratos (como é o caso dos neurocirurgiõ es, anestesistas, neonatologistas e ortopedistas) . Nesse processo de estratificação da categoria, gerou-se um quadro complexo de relações sociais em que muitos mantêm dois ou mais vínculos empregatícios, médicos empregam em clínicas privadas outros médicos, empregadores também vendem sua força de trabalho para grandes corporações e seguradoras, a maioria trabalha tanto no setor público quanto no privado, etc. Em virtude disso, e a despeito da crescente e cada vez mais patente heterogeneizaçã o da categoria médica gerando “hierarquias de especialidades” , o corporativismo médico ainda se sustenta como elemento unificador da categoria, sempre alimentando a idéia de que a “classe” ou a “casta” médica deve-se manter unida frente à proletarização, servindo como meio de manobra ideológica para que determinados interesses de classe burgueses de certos médicos ligados ao Capital ou às suas representações (DEM, PSDB, PMDB, etc.) encontre sempre o eco no senso-comum composto pelos outros médicos, determinando a freqüente aliança com o mercado.

O sistema de saúde: a omissão pertinente

Colocar, assim, a questão do ponto de vista classista garante que se perceba que o real inimigo de um sistema de saúde público, gratuito e de qualidade não são os médicos em si, mas os interesses do grande Capital que ganha espaço e se manifesta também através desta categoria, manipulando- a.
Outro aspecto fundamental é compreender o que se passa na área da saúde atualmente, sem temer a crítica em torno da estratégia do SUS:
A saúde vem sendo profundamente reformada pelo Capital nos últimos anos. Restrição de recursos, precarização dos empregos, projetos de OS’s (Organizações Sociais), OSCIP’s (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público), Fundações Estatais de Direito Privado, avanço das seguradoras de saúde, das cooperativas médicas, são todas políticas gestadas por organismos internacionais do Capital, por elites dentro da organização do capitalismo na saúde, e pela intelectualidade que não consegue mais visualizar outro horizonte além da perspectiva da “gestão do possível”, tendo por isto a perspectiva ou o efeito de privatização dos serviços de saúde na América Latina. É perceptível, como ao longo desses anos, o público se tornou complementar ao privado e não o seu oposto, como prevê a Constituição. O Sistema Público de Saúde infelizmente na prática não é universal, é para pobre, para quem não tem condições de pagar um plano de saúde. (SEMINÁRIO LIVRE PELA SAÚDE).

Definitivamente, o SUS perdeu seu caráter de ferramenta alavancadora dentro de um horizonte estratégico socialista, conforme concebido na década de 1980, para se tornar o maior consumidor de indústrias farmacêuticas e financiador do complexo médico-hospitalar. Eis porque é freqüente vermos nas câmaras e no senado a defesa de mais verbas para a saúde por parte de bancadas compostas por representações burguesas, já que isso fomenta ainda mais esses setores privados. O voltar-se para o sistema público das cooperativas médicas, surgidas para barganhar no mercado privado melhores rendimentos para seus cooperados, se explica por isso: garantia constante de contratação, o que é limitado no campo privado pela restrição de expansão deste frente ao baixo poder aquisitivo da população. Rosa Luxemburgo já dizia acerca do cooperativismo em Reforma ou Revolução?: “Só tendo um mercado, um círculo constante de consumidores, garantido de antemão, pode ela atingir esse alvo. Justamente a cooperativa de consumo lhe fornece esse meio”. E esse círculo constante de consumidores é garantido para as cooperativas médicas através do SUS.
O constante e progressivo amoldamento do SUS a interesses privados tornou-o totalmente dependente deles. E é importante que se ressalte a participação de muitos elementos médicos burgueses em tudo isso, alimentando uma relação público-privada promíscua a partir da desresponsabilizaçã o estatal na área e da precarização do próprio trabalho médico para garantir, entre outras, a necessidade de existência de terceirizações, através da contratação de clínicas/hospitais privados ou de cooperativas médicas, as quais funcionam como verdadeiras empresas privadas.
O discurso manifesto pelo atual presidente do sindicato dos médicos SINMED-RN (também presidente da Associação Médica do RN, candidato à presidência da UNIMED e cooperado da COOPANEST – Cooperativa de Anestesiologistas) de que a organização dos médicos em cooperativas se faz necessária devido à falta de perspectivas profissionais e precarização encontrada no SUS, esconde que tal precarização tem sim uma ativa participação de médicos ligados à burguesia em tudo isso. Não é à toa que Natal e o Rio Grande do Norte enfrentem hoje um verdadeiro caos na saúde pública mesmo quando há três anos quase 30% das prefeituras do estado eram ocupadas por profissionais médicos. Mesmo quando a Secretaria de Saúde do estado ou do município esteve por diversas vezes na mão de médicos nos últimos anos. Isso coloca em evidência o caráter de classe que a atual situação nos apresenta e desvela o discurso corporativista falacioso de que a situação dos médicos no sistema público se deve à atuação de burocratas que não conhecem o cotidiano da medicina e da saúde, de que seria diferente se a categoria médica tivesse condições de atuar nesse sistema.
A omissão do Estado na “política de recursos humanos”, não realizando concursos públicos ou realizando-os com salários vexaminosos, contou e ainda conta com a complacência de elementos médicos burgueses, que vêem nisso um campo aberto e pertinente para a proliferação de iniciativas privatistas, destacando-se hoje a atuação das cooperativas médicas. Essas, por sua vez, vêm sistematicamente impondo pressão ao sistema de saúde na forma de contratações ilegais, já que não se dá por concurso público, mas sim de modo temporário e renovado a cada seis meses (sendo, portanto, um “temporário permanente”); na realização de pagamento duplo, já que serviços contratados a hospitais privados também exigem o pagamento dos profissionais do próprio hospital, isentando-o desse encargo; e no duplo vínculo de muitos cooperados, que também compõem o quadro do próprio sistema público e recebem via cooperativas.

Conclusão

Pelo discutido acima, a crise da saúde em Natal deve ser concebida sob o prisma da luta de classes. Somente assim podemos perceber os reais interesses envolvidos por detrás da questão das cooperativas médicas, sem cairmos na cilada de reduzir o debate a uma escalada contra a categoria médica per si. Uma atitude dessa, só levaria ao reforço da estratégia de nossos inimigos a partir da manipulação via corporativismo, fechando canais de diálogo com elementos médicos insatisfeitos com esse contexto real de precarização e conduzindo-os a se fecharem em torno de sua corporação.
Apesar de extremamente fechada e conservadora, essa categoria é hoje cada vez mais estratificada e heterogênea, e, bem ou mal, a atuação do grupo que está atualmente à frente das entidades médicas tem sido vista com maus olhos pela maioria da população, gerando um desgaste da figura do profissional médico em Natal e uma insatisfação por parte de alguns deles diante dessa situação de descrédito, sendo possível a mobilização de determinados setores para nosso campo.
Portanto, pensar num enfrentamento ao Capital na saúde perpassa também a mobilização desses grupos insatisfeitos, tendo como base a mobilização popular em defesa da saúde pública.



Henrique Gonçalves Dantas de Medeiros
Estudante do 9º período do curso de medicina da UFRN

BIBLIOGRAFIA:
01. OLIVEIRA, Eurenice. Toyotismo no Brasil: desencantamento da fábrica, envolvimento e resistência. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
02. IASI, Mauro Luís. Ensaios sobre consciência e emancipação. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
03. SEMINÁRIO LIVRE PELA SAÚDE, 1., 2008, Natal. Carta de Natal. Natal: 2008.
04. LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? São Paulo: Expressão Popular, 1999

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Sejamos todos comunistas


Já me chamaram de socialista, comunista, anarquista, petista ( afê)e todos os rótulos à esquerda pelos mais diversos motivos. Por em meio a um ambiente de competitividade angustiante defender algumas coisas para todos, como plantões e estágios, mesmo que isso não faça a menor diferença na luta de classes. Por passar tanto tempo em reuniões por melhorias no curso que não vou usufruir. Por em estando numa universidade pública achar que o ensino na mesma deve ser voltado para as necessidades da população que paga para estarmos aqui e que nunca poderá estar no nosso lugar, em vez de um ensino pautado nas leis de um mercado falido ( vide a crise para ver o que dá se pautar pelo mercado). Por defender uma saúde pública de qualidade, entendendo que saúde não deve ser uma mercadoria, como a vida não deve ser vendida.

Agora a última novidade é ser tachada por comunista, em tom de ofensa, pela devassa que está sendo feita pelo ministério público no nosso curso à procura dos professores fantasmas. Temos no nosso curso mais de 180 professores, cada um contratado para pelo menos 20 horas semanais. Nessa situação, é inadmissível que o internato no HUOL, que muitos defendem com unhas e dentes de maneira acrítica, tenha pérolas de inoperância como o estágio de cirurgia torácica. Lá não se coloca um dreno. Não se vê uma cirurgia. Não se faz um ponto. Não se vê um professor. Não se vê um médico. Nas duas semana que passei nesse estágio, não discuti a conduta com ninguém que tenha um carimbo com um número de CRM (deveria chamar de médico?) uma única vez. E o pior, a paciente que eu acompanhava, passou uma semana sem ter contato com qualquer médico. Como alguém assina a conduta sem ver o paciente? Como tantos estudantes passam por lá e acham normal isso? Aí alguém vem e denuncia isto ao ministério público. Não, não fui eu. Infelizmente, pois adoraria trazer este fato no meu curriculum lates. Mas alguém foi mais rápido e rompeu com o pacto de mediocridade onde estudantes fingem que aprendem, médicos fingem que ensinam, fingem mesmo que atendem, mas os pacientes não fingem que estão doentes.

E de quem é a culpa de tudo isso? Para aqueles que se viram incomodados em sua confortável situação de professores virtuais em consonância com o avanço da informática e do ensino à distância, tudo culpa de um Centro Acadêmico ( do qual nem faço mais parte) e de uma estudante com suas idéias comunistas. Acho injusto com os estudantes que vêm se indignando com esta situação, que externaram isso à reitoria durante avaliação do curso médico, que esse crédito não lhes seja dado também. Já vemos a consciência de que é possível não ser medíocre avançar em nosso meio, apesar das resistências. Também não sabia que indignar-se com a falta de escrúpulos em não assistir um paciente em função para a qual fomos contratados com dinheiro público fosse exclusividade de comunistas. Neste caso, convido a todos, sejamos éticos,lutemos pelo que é comum, sejamos todos COMUNISTAS!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Qualquer semelhança...

"Fiquem tranquilos, só estamos aqui para assegurar uma manifestação pacífica."

terça-feira, dezembro 02, 2008

O Mito da caverna de Hipócrates


Era uma vez uma caverna, onde os médicos viviam aprisionados, presos pelas mãos e pelos pés uns aos outros, numa prática que, posteriormente, evoluiu para o corporativismo.
Os médicos não podiam escapar daqueles grilhões que os seguravam, permanecendo naquela caverna desde o momento em que entraram na universidade até o final da sua vida.
Viviam entretidos por “imagens distorcidas”, “sombras” que eram passadas nas paredes, primeiro por seus professores da universidade; depois, pelas revistas “científicas” e pelos congressos financiados pelas indústrias farmacêuticas. Aprendiam, com elas, o diagnóstico e o tratamento das doenças; mas somente das mais raras, com prevalência de no máximo 1 em 100.000 habitantes, as mais comuns são coisa pra enfermagem...
Como passaram toda a vida presos aos grilhões da caverna, pra esses médicos, medicina é, pura e simplesmente, diagnóstico e tratamento; qualquer outra coisa além disso não é mais medicina. E nem adianta discutir! Suas pupilas entraram numa espécie de “midríase crônica”, tornando doloroso pra eles enxergar qualquer coisa mais luminosa que aquelas sombras.
Um médico, no entanto, angustiado por sentir lá no fundo que medicina não era aquilo, percebeu os grilhões que o aprisionava. Resolveu comentar com os colegas: “Vejam! Há grilhões em nossas mãos e pés!” Os outros, prontamente, responderam: “Ta louco? Faz silêncio se não vou perder a próxima sombra!”
Apesar de rechaçado pelos colegas, o médico inquieto e perspicaz conseguiu livrar-se dos grilhões e virar-se, percebendo que atrás de si havia uma fogueira. Seus olhos doeram bastante quando se virou, mas conseguiu com o tempo se acostumar com a luminosidade.
Percebeu então que os catedráticos projetavam as sombras que ele vira durante toda a vida. Foi rispidamente questionado porque havia se levantado e se livrado dos grilhões e mandaram-no voltar ao seu lugar, dizendo que ele estava louco de pensar que havia algo a mais que as sombras, mas, apesar disso, apesar da pressão daqueles que sempre respeitou, sabia que a medicina não podia se resumir àquilo e foi quando avistou ao longe uma luminosidade mais forte até que a fogueira que formava as sombras.
Conseguiu, então, fugir da caverna e chegar ao lado de fora. Percebeu que muito maior que as sombras na parede, maior que a fogueira dos catedráticos, era o Sol da verdadeira Medicina hipocrática, que só brilhava fora das paredes da caverna.
Doeu bastante até que seus olhos se acostumassem com a luminosidade dela; questionou-se porque tantos outros negavam-se a ver que as coisas iam além das sombras, além do diagnóstico e tratamento; vacilou a princípio por se achar um pouco só, mas sentiu em seu íntimo que aquele era seu caminho, ali sim ele poderia ser um verdadeiro Médico, não um mero prescritor de remédios e exames, alimentado por muito mais que sombras (slides?) na parede...

P.S.: qualquer semelhança com outra história é mera coincidência...Paulo Tarcísio NetoCoordenação Geral do CANECA - Centro Acadêmico de Medicina Nelson Chaves - UFRN

domingo, novembro 09, 2008

Tio CHE


Ai se sesse!

E a cegueira racista americana...


Até onde vai a miopia americana


OBAMA: democracia ou ideologia? ou é tudo uma coisa só?

Marthin Luther King se revira no túmulo, com serteza, diante do uso sensacionalista e ideológico que fazem de sua figura. Não creio que estaria vibrando em ver um candidato do partido da Kul Klus Klan chegar à casa da branca sendo comparado a ele, não importa a cor que ele tenha. è verdade que não podemos ignorar o revolver que está acontecendo na conservadora sociedade americana e a possibilidade isto expor à flor da pele suas contradições, mais daí acreditar que o fato de um negro, rico, chegar à presidência tornará a vida dos negros, pobres, menos dura é olhar tal superficialmente como alguém que julga as pessoas pela pele. É como acreditar que ter uma mulher na presidência acabará com o machismo. Mas tê-lo terá o importante papel de mostrar que precsa-se de muito mais para realmente promover mudanças.

terça-feira, setembro 02, 2008

Cotidiano

Todo dia ela faz
Tudo sempre igual
Me sacode
Às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca
De hortelã...
Todo dia ela diz
Que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz
Toda mulher
Diz que está me
Pro jantar
E me beija com a boca
De café...
Todo dia eu só penso
Em poder parar
Meio-dia eu só penso
Em dizer não
Depois penso na vida
Prá levar
E me calo com a boca
De feijão...
Seis da tarde
Como era de se esperar
Ela pega
E me espera no portão
Diz que está muito louca
Prá beijar
E me beija com a boca
De paixão...
Toda noite ela diz
Pr'eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor...
Todo dia ela faz
Tudo sempre igual
Me sacode
Às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca
De hortelã...