quarta-feira, março 19, 2008

Saúde no Rio Grande do Norte: prognóstico reservado.


Estive recentemente visitando a rede básica de saúde de Recife e, como potiguar, senti o orgulho um tanto ferido. Invejei um bocado o direito dos pernambucanos serem bairristas como se costuma dizer. Encontrei na rede básica de saúde medicamentos como antibióticos e antivirais ( tipo o aciclovir ) que não encontro no hospital de referância de infectologia do nosso estado. Lá também vi o quanto a rede básica de saúde pode ser resolutiva, desde que sejam dadas as mínimas condições e os profissionais sejam preparados e queiram fazer a sua parte. Lá vi o posto de saúde não ser um mero balcão de encaminhamentos.
Já aqui...Parece haver um pacto de mediocridade que congrega dos governantes ao agente de saúde, passando claro pelos médicos. Claro, não devemos generalizar, pois tem muita gente boa dando o melhor de si pra fazer com que a população tenha uma assistência à saúde digna. Mas também tem muita gente que parte da idéia de que quanto pior, melhor. E lucra com isso. Lucra por que isso demanda mais verba, e então rouba mais, lucra por que isso demanda soluções emergenciais com profissionais sendo pagos de maneira diferenciada, lucra por que isso gera votos, lucra por que em meio ao caos qualquer um que der (ou vender barato) aquilo que o povo deveria ter de graça é um herói. Soube recentemente que na rede municipal de saúde de 100 equipes de PSF, 52 estão sem médicos. Não acho que o médico seja único na assistência à saúde, mas acho que a população tem que ter o direito de ter uma consulta com um médico ( ou nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta...) se precisar.
A visita a Recife só confirmou a minha impressão de que o SUS tem solução sim. E não é o tipo de solução que vem sendo proposta por exemplo pelo sindicato dos médicos de jogar paras as empresas a responsabilidade com a saúde de seus funcionários ( e quem não tem carteira assinada?). Também não concordo com quem diz que o problema é só o governo. Muito fácil se eximir da culpa. O problema é de todos. inclusive nosso. O que o nosso curso está contribuindo para formar médicos melhores para o SUS? O que nós estamos fazendo para que ele cumpra essa função? Estou cansada de ver, por exemplo, médicos formados em escolas privadas mais preparados para a atenção básica ( que deveria resolver 85% da demanda da saúde) do que aqueles vindos de escolas públicas, que só pensam (muitos, não todos) em fazer a especialidade onde tenha mais procedimentos e próteses e medicamentos com que possam ganhar em cima do paciente ou do sistema ( público ou privado) consolidando uma indústria da doença. Quanto mais doente melhor, ganha-se mais. Não nos vejo preparados para promover saúde, trazer saúde, mas sim para lucrar com a doença.
Minha angústia maior, um tanto mesquinha e egoista é verdade, é que tenho visto tudo caminhar para dentro de um curto prazo o nosso curso não ser mais o melhor do estado. Não que não tenha bons professores, não que não tenha bons estudantes, não que não seja possível fazer as mudanças necessárias para se ter um curso excelente em uma universidade pública. Mas parece que um vírus de paralisia contaminou a professores, estudantes, e nada mais importa do que "bater o ponto" ( e isso importa?) na sala de aula. Dessa forma, é difícil querer que quando estivermos lá no SUS não se assuma a postura cômoda e medíocre de jogar a culpa no governo, no gestor, no SUS...

Nenhum comentário: