
O problema da falta de professores para as mais diferentes disciplinas já é uma questão antiga, a ponto de virar motivo de piadas. Contudo, risos a parte, o que é mais preocupante é o comodismo que isso gera dentro da comunidade acadêmica, em virtude da naturalização de uma distorção crônica. Com o tempo, acaba-se achando normal uma consulta psiquiátrica ambulatorial com vinte estudantes assistindo, ou a atitude de se levar pacientes para a sala de aula para que metade de uma turma veja, como num zoológico, as mazelas de um cidadão.
Exatamente: cidadão! Por mais que essas iniciativas sejam formas de se tentar contornar uma carência de aulas práticas, elas esbarram em questões éticas gravíssimas. Aquelas pessoas a quem nos acostumamos a chamar de pacientes, como seres que passivamente agüentam todo tipo de desaforo, são cidadãos, tanto quanto os pais de qualquer um (imaginem isso), e têm o direito de ter sua dignidade preservada, assim como nós temos o dever de combater esse tipo de prática. Essa é a razão desse texto e deve estar sempre em mente quando se discute os problemas pedagógicos do curso.
Mas, e as aulas?
O início desse semestre foi marcado por uma verdadeira enxurrada de problemas com número reduzido de professores e excesso de estudantes nas práticas. Só para citar alguns exemplos:
O Departamento de Patologia não está ministrando as aulas inseridas ao longo das diversas clínicas;
A disciplina de Doenças Endócrinas e a de Doenças Reumatológicas oferecem aula prática para apenas metade dos estudantes em cada semana;
Ortopedia há muito tempo não tem aulas práticas;
As disciplinas de Atenção à Saúde e a de Administração Sanitária não tem professores para ministrá-las em virtude da aposentadoria ou do afastamento de alguns;
Psiquiatria há muito tempo divide a turma em dois grupos de mais de vinte acadêmicos para as práticas;
Além disso, os grupos com 10, 11, 12 ou mais estudantes nas consultas de proctologia, de dermatologia e tantas outras gias...
O número limitado de professores sempre é o argumento levantado, quase como uma unanimidade, quando se tenta justificar medidas como as citadas no início, e em alguns casos realmente ele é plausível. Porém, será que realmente se limita à contratação de novos docentes a solução de tudo?
Já é fato sabido por muitos, e abafado por todos, o absenteísmo docente no nosso curso. Professores que recebem seu salário para executarem uma carga horária de 20 ou 40 horas, mas que só aparecem uma ou duas vezes num semestre em sala de aula (quando muito). Um professor desse tipo ainda teve o descaramento de solicitar aumento salarial numa reunião ordinária do Conselho do Centro de Ciências da Saúde (CONSEC) há um ano. É rir para não chorar... E o pior é que, se o processo chegou até essa instância, é porque ele foi aprovado pelo departamento em questão...
Isso é roubo de dinheiro público, e é culpado tanto quem rouba quanto quem acoberta. Omitir-se também é crime. Corrupção tanto quanto os famigerados cartões corporativos, as cuecas, etc. Desrespeito para com os estudantes, os professores que realmente cumprem seu papel (e nós sabemos quem são eles) e, principalmente, os usuários. E muitos desses meliantes é que vão abrir a boca para, hipocritamente, nos ensinar ética...
Mas também existe uma outra face desse problema. Trata-se do modelo de educação médica centrado na especialidade. Apesar dos avanços em nosso Projeto Político Pedagógico na tentativa de formação de um médico generalista, capaz de atender um ser humano de forma holística, muitos professores nos ensinam ainda como há trinta anos, são especialistas incapazes de dialogar com as demais especialidades. Trata-se de um carro novo numa pista velha e esburacada. Por isso é que se precisa de 10, 11, 12 preceptores por cada especialidade.
Só para se ter uma idéia do viés do argumento usado, o curso de medicina, o qual detém o maior número de docentes na UFRN, no ano passado tinha, segundo a lista disponibilizada pela coordenação de curso e enviada em outubro para os e-mails das turmas pelo CANECA, 181 professores espalhados por DMC, DMI, DPED, DGO, DSC, CIR, PAT e INF. Em 2007.2, havia 563 acadêmicos de medicina matriculados. Isso resulta numa relação média discente-docente de 3,11. A situação atual é um verdadeiro absurdo!
Por isso é que não se pode tolerar as atitudes citadas para “contornar a carência de preceptores”. O buraco é muito mais embaixo. É necessário confrontar essa erva daninha de forma a cortá-la pela raiz, para que nossa educação aconteça concretamente, não só do ponto de vista técnico, mas principalmente do humanístico e do ético. Isso se aprende no cotidiano, na prática de todos os dias, em cada momento, e não da boca para fora ou numa mera disciplina.
Por isso, se você se indigna com toda essa falta de escrúpulos e de caráter, denuncie!
Henrique Gonçalves

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