terça-feira, fevereiro 22, 2011

Mulheres em luta em Campina Grande


Entidades de Campina Grande comemoram Dia Internacional da Mulher na próxima terça-feira



Campina Grande, 10 de março de 2011.



Um grupo de entidades, movimentos sociais, sindicais e estudantis de Campina Grande se uniu para celebrar na próxima terça-feira, 15 de março, o Dia Internacional da Mulher, transcorrido na terça-feira, feriado de Carnaval. A data vai ser comemorada na cidade com o Debate “Mulheres do Campo e da Cidade na Luta por Direitos e Igualdade” realizado à partir das 13h30, no auditório da Faculdade de Administração da UEPB, localizado à Rua Getúlio Vargas, 44, Centro. O evento terá como debatedoras Idalina Santiago, professora e pesquisadora do Grupo de Estudos de Gênero Flor e Flor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), falando sobre a conjuntura dos direitos das mulheres no cenário urbano e Maria Leonia dos Santos do Pólo Sindical da Borborema e da Articulação do Semi-Árido ASA sobre a conjuntura no meio rural.



A programação da tarde será aberta com uma apresentação de Teatro do Oprimido, onde se discutirá os principais problemas que as mulheres enfrentam hoje em dia e serão discutidas soluções com a ajuda dos/as expectadores/as. A entrada no evento é totalmente gratuita e aberta a qualquer pessoa interessada, estão sendo convidadas entidades representativas da sociedade civil organizada de Campina Grande.



Batucada e panfletagem



Após o debate, às 16h30 as/os participantes irão realizar uma batucada e panfletagem na Praça da Bandeira e sinais de trânsito próximos, distribuindo materiais informativos sobre a temática e chamando a atenção da população que passa pelo local para os graves problemas enfrentados pelas mulheres atualmente.



Entre as entidades que promovem o evento estão: Articulação do Semi-Árido da Paraíba (ASA-PB), Associação dos Docentes da UFCG (ADUFCG), Associação de Juventude pelo Resgate da Cultura e Cidadania (AJURCC), Associação das Trabalhadoras Domésticas de Campina Grande, Central Sindical e Popular (Conlutas), Centro da Mulher 08 de março, Centro Acadêmico de Serviço Social 08 de Março (UEPB), Centro de Ação Cultural (CENTRAC), Clube de Mães de Belo Monte, Consulta Popular, Grupo de Estudos de Gênero Flor e Flor da UEPB, Diretório Central dos Estudantes da UEPB, Diretório Central dos Estudantes da UFCG, Heifer Internacional, Marcha Mundial das Mulheres, Ong Menina Feliz, SINTAB e Via Campesina.



Marcha



Ainda dentro das comemorações alusivas ao Dia Internacional da Mulher na próxima sexta-feira, dia 18 de março, acontecerá na cidade de Queimadas, a 2ª Marcha pela Vida das Mulheres e Agroecologia promovida pelo Pólo Sindical da Borborema e pela Ong Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), com o apoio da Articulação do Semi-Árido da Paraíba (ASA-PB). O evento terá concentração no centro da cidade a partir das 9h, com uma Peça de Teatro sobre os problemas enfrentados pelas mulheres e as prováveis soluções, em seguida a Marcha, seguirá pelas ruas centrais de Queimadas. O evento espera reunir cerca de 1.500 mulheres dos 16 municípios em que o Pólo Sindical da Borborema atua e de todas as demais regiões do Estado.A Marcha faz parte de uma série de eventos como seminários e encontros preparatórios que vem acontecendo dentro das comemorações do mês da mulher na região.



Dados



· 53 mulheres foram assassinadas na Paraíba de janeiro a dezembro de 2010;


· A cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil;


· 7,2 milhões de mulheres com mais de 15 anos já sofreram agressões no país;


· 51,2% das mulheres estão no trabalho informal (contra 46,8% dos homens);


· 11,6% das mulheres ocupadas com 16 anos ou mais não tem rendimento;


· As mulheres são maioria entre os desempregados (56,4%); são minoria com carteira assinada (33,58%); são minoria no trabalho formal (25,8%); e recebem em média 29,7% menos que os homens;


· Um dos maiores percentuais da força de trabalho feminina se concentra no trabalho doméstico remunerado: 15,8% do total de mulheres ocupadas. Destas, 80% são negras.


· Na América Latina e Caribe, as mulheres são responsáveis por 45% da produção de alimentos.


· As mulheres estão entre a parcela da população que mais estão sujeitas a pobreza, fome e desnutrição no mundo.


· No Brasil, as mulheres representam 47,8% da população residente no meio rural, somente 16% são titulares das terras onde moram.


· Poucas mulheres conseguem acessar o crédito rural, a exemplo do Pronaf Mulher que em 2010 não foi acessado por nenhuma mulher na PB.


· A taxa de analfabetismo feminino, em 2006, na zona rural era de 22,2.

A Veja, remédios para emagrecer e a medicalização da vida sob interesse do capital



Na última edição 2205 de 23 de fevereiro de 2011 o panfleto neoliberal que atende pelo nome de Veja traz como tema de capa a possível e desejável, mas ainda não consolidada, proibição pela ANVISA ( Agência Nacional de Vigilância Sanitária) da venda de alguns medicamentos para emagrecer (anorexígenos). A carta ao leitor que trata da temática recebe o título de " A opressão em nome do bem". Vejamos o que há por trás disto tudo e a ideologia dos argumentos da revista revestidos de um verniz de utilidade pública e cientificidade barata.


A Anvisa tem sua criação nos marcos das reformas do estado brasileiro realizadas com a finalidade de cumprir o Consenso de Washington. Está na sua criação em consonância com a idéia de estado detentor de um papel regulador, porém sem grandes intervenções. Tem como objetivo regular medicamentos, equipamentos médicos, alimentos e agrotóxicos. No entanto, por muito tempo, teve uma atuação insípida com relação principalmente aos medicamentos, pois não é fácil enfrentar a indústria farmacêutica, a qual gasta mais com propaganda visando convencer os médicos a prescrever seus produtos que com pesquisas de novos medicamentos. Porém nos últimos tempos tem tido atuação mais incisiva como quando proibiu os brindes dados pelas indústrias aos médicos e estabeleceu controle mais estrito na prescrição dos antibióticos com vias a combater a automedicação e diminuir a resistência bacteriana , medidas que tem desagradado às indústrias e aos médicos. Nesta investida, coloca para discussão com a sociedade a retirada do mercado de quatro medicamentos para emagrecimento, sob alegação de falta de consistência nos estudos que mostram resultados e efeitos adversos graves frente a perdas de peso discretas e não sustentadas a longo prazo. Baseando-se na opinião de especialistas, opinião nem sempre isenta de conflitos de interesses, que a revista coloca em questão tal medida.


A reportagem da revista começa citando os milhões de brasileiros que não conseguem emagrecer por uma questão biológica, dependendo portanto dos medicamentos sob suspeita. A idéia que perpassa essa afirmação é a biologização da vida, ignorando fatores sociais, culturais e econômicos. Ou será que metade dos EUA passou a ter nas últimas décadas um problema meramente biológico que fez com toda esta população esteja com sobrepeso ou obesa e que o complexo Industrial Farmacêutico mais pujante do mundo não tenha conseguido conter tal epidemia com os remédios em questão? Na verdade mesmo com a dubiedade do órgão fiscalizador americano, o FDA, que vez ou outra tem ex-funcionários das indústrias farmacêuticas em seus quadro de funcionários, alguns destes medicamentos já foram proibidos no mercado americano. A revista ancora sua defesa na opinião da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) que se apóia em estudos considerados insuficientes pela ANVISA. Ora, a Veja é a primeira muitas vezes a colocar como capa um novo remédio para o que quer que seja amparada em poucos estudos, de forma sensacionalista e propagandista. O papel central dado a medicamentos e procedimentos médicos pela revista demonstra uma posição ideológica de medicalização da vida, onde toda tristeza passa a ser depressão, oscilação de humor é transtorno bipolar, estar fora dos padrões de beleza imposto pela mídia é um problema a ser resolvido cirurgicamente, a obesidade como algo meramente biológico, tudo isso com um remédio ou uma intervenção médica à venda no fabuloso mercado da saúde e da beleza capitalista.


A epidemia de obesidade que vemos hoje pelo mundo é um reflexo da sociedade de consumo que vivemos. E a ânsia por um remédio que resolva tudo uma faceta do imediatismo inerente a esses tempos onde não temos tempo de comer bem, nos exercitar. Isso é evidente nos supermercados. Antigamente se vendia hamburguer pronto, para fazer o sanduíche em casa. Agora compramos o sanduíche pronto, congelado, só colocar no microondas. Claro que para produzir toda essa comida pronta, torná-la atrativa aos olhos e paladar e obter lucro a indústria tem feito uso cada vez maior de conservantes, sódio, açúcar, gordura e matérias-prima de baixa qualidade. E tudo temperado como muita propaganda livre de regulação até o momento. Sintomas disto são as doenças relacionadas à obesidade como pressão alta, alterações das taxas de gordura e açúcar no sangue estarem cada vez mais comuns entre as crianças. É de se esperar que a expectativa de vida em algumas décadas se reduzirá pelas doenças derivadas da obesidade. Daí ser louvável a iniciativa da ANVISA de querer restringir as propagandas de biscoitos e refrigerantes.


Um dos principais argumentos da Veja contra a medida é a liberdade individual e a falsa premissa de que nos são dados todos os elementos para realizarmos nossas escolhas. Será que é dito ao paciente verbalmente pelo médico que algumas pessoas morreram com o uso daquele remédio? Que o médico teve sua viagem para o último congresso de atualização paga por laboratórios que também financiam os congressos e as pesquisas e só publicam os dados favoráveis? Que o todynho(achocolatado) que dá ao seu filho de lanche todo dia tem a quantidade de sal que deve ser consumida em um dia inteiro? Que o combo do MacDonalds que lhe serve de almoço extrapola as quantidades de calorias necessárias para todo o resto do dia? Argumento mais liberal impossível.


A questão da obesidade não é uma questão simples, está ligada a todo um modo de vida e uma ideologia consumista e imediatista que se forjou no capitalismo atual e para qual não há uma pílula mágica à venda na farmácia da esquina. É uma questão de saúde pública e como tal precisa ser encarada, sendo legítima a atuação da ANVISA com vias de proteger a população da sacrossanta liberdade de prescrição de médicos que, querendo ou não, acabam servindo de correia de transmissão dos interesses das Indústrias farmacêuticas e da ideologia do capital .



Ana Carolina de Souza Pieretti

domingo, dezembro 19, 2010

MP quer descredenciar Clínica Santa Maria do SUS

O MP descobre o óbvio: que a Clínica Santa Maria naõ tem condições de continuar prestando assistência à Saúde Mental, seja ao SUS ou ao setor privado.

http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/mp-quer-descredenciar-clinica/167762

sexta-feira, dezembro 10, 2010

WikiLeaks e a liberdade de expressão



Por Walter Hupsel . 09.12.10 - 13h34


O povo contra Julian A.


Não conheço quase nada de Julian Assange e um pouco sobre o WikiLeaks, uma organização sem fins lucrativos que está abalando o mundo. (Ah, o site não entra? Então, tente este). Em síntese, Julian A. é o fundador do site, existente há quatro anos, que divulga informações sigilosas de suposto interesse público.


Depois de divulgar, sem muita repercussão, alguns documentos da guerra no Iraque, o WikiLeaks vazou cerca de 250.000 documentos de comunicação entre embaixadas dos Estados Unidos. Foi o bastante para que uma implacável caçada ao site e ao seu fundador fosse empreendida globalmente.


Por isso o primeiro link não funciona mais. O site era hospedado em um servidor da Amazon, que, com a repercussão do caso, resolveu tirá-lo do ar. Depois disso, o PayPal, site de transações financeiras, também passou a boicotar o WikiLeaks, impedindo assim que doássemos dinheiro para este por meio dos seus sistemas.


Mais implacável ainda, as bandeiras Mastercard e Visa, que tinham contrato com a WikiLeaks, decidiram encerrar a parceria, estrangulando ainda mais a parte mais sensível do site, o financiamento (mas ambas aceitam doações para organizações inofensivas como… a Klu Klux Klan). Se quiserem ver até que ponto chegou a caçada, o banco suíço que tinha Julian A. como correntista bloqueou a conta do fundador. Querem matar o site por inanição financeira.


Ação ágil, a despeito da pretensa neutralidade suíça e os tortuosos e lentos caminhos que um país qualquer tem de enfrentar para ter acesso a dados de movimentações financeiras num banco suíço, mesmo com provas de dinheiro sujo, vindo de tráfico de drogas, de mulheres ou de armas. A mesma Suíça que relutou em procurar em seus bancos contas-corrente que financiavam a Al-Qaeda.


Paralelamente, a Suécia, onde a WikiLeaks tinha sede, emitiu um pedido de prisão para a Interpol por um suposto crime de estupro, ou transar sem camisinha – ou de ambos. A essa altura, Julian A. tinha virado um fugitivo internacional, como Joseph Mengele ou Viktor Bout. O Facebook e o Twitter deletaram os perfis de grupos de ativistas que apoiavam Julian A. Uma caçada global e impiedosa contra uma pessoa que cometeu o pior dos crimes: abrir arquivos dos Estados Unidos.


Na manhã de terça-feira (07), ele se entregou em Londres, sem direito a sursis, e ficará em custódia pelo menos por uma semana. Depois, seu futuro é incerto, podendo ser, inclusive, deportado para os Estados Unidos.


Institucionalmente, quase ninguém se manifestou sobre a arbitrariedade da prisão e o absurdo dessas ações de caça. A Repórtes sem Fronteiras manteve o mais absoluto silêncio, assim como outras entidade de defesa da liberdade de expressão. Os chefes de Estado, em geral, se apressaram para criticar o WikiLeaks, e alguns políticos, como Sarah Palin, pediram a cabeça de Julian A., literalmente. Uma das honrosas excessões foi o presidente Lula, que em discurso nesta quinta-feira (09) defendeu com veemência a liberdade de expressão e cobrou uma reação dos veículos de comunicação a favor do “rapaz” do WikiLeaks.


A reação não tardou, e pessoas em todo o mundo atacaram os sites do paypal, da Mastercard, da Visa, do sistema financeiro suíço e da Justiça sueca. Hackers do mundo todo estão sobrecarregando os servidores desses órgãos na tentativa de derrubá-los, e com relativo êxito, no que foi chamado de operação payback (Leia aqui o manifesto) , e sites-espelhos do WikiLeaks estão se proliferando na rede, divulgando as informações que esses governos, e muitos outros, não querem que sejam espalhadas.


Como disse, pouco sei quais seriam os propósitos de Julian A., se desestabilizar o governo de Obama em prol dos histéricos neo-cons ou se ele se imagina como um Codinome V, realmente lutando por transparência nas ações dos governos, com todas as contradições e idiossincrasias.


O fato é que a primeira guerra cibernética está em curso, como mostram as uniões de governos e de grandes empresas e, do outro lado, os outroras dissipados e concorrentes hackers.


A caça a Julian A. e ao WikiLeaks é uma forma de caça à rede, e as ações tendem a ser cada vez a seguir a tentativa de fechar o circuito. Como reza a 3ª Lei de Newton, caberá reações em igual intensidade e em sentido contrário.


De qualquer maneira, Julian A. ganhou a primeira batalha. Os governos agora temem a população, e não o contrário. Longe de tentarem se explicar, de debaterem o teor dos documentos vazados e o porquê das suas ações, criminalizaram a organização. Governos que, em nome de qualquer coisa, segurança nacional, do cuidar da população, se põem como altruístas, como sendo nós mesmos.


Para eles, que talvez evoquem o nosso nome num julgamento de Julian A., ou de qualquer outro criminalizado, deixo uma velha frase de Nietzsche: “O Estado é o mais frio dos monstros, da sua boca sai a seguinte mentira: Eu, o Estado, sou o povo.”



terça-feira, novembro 16, 2010

Fiscalização: agrotóxicos eram fabricados com produtos vencidos desde 2007



10 de novembro de 2010


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditou, nesta terça-feira (9/11), cerca de 60 mil litros do agrotóxico Clorpirifós Técnico na fábrica da Fersol Indústria e Comércio S.A, em Mairinque (SP). Ingredientes importados da Índia para fabricação do produto não possuíam registro. Além disso, a empresa não possuía autorização do Ministério da Agricultura para produzir o produto, utilizado para formular o agrotóxico Clorpirifós Fersol 480 EC, autorizado para uso em 14 culturas.



O registro no Ministério da Agricultura é requisito obrigatório para produção e comercialização de agrotóxicos no Brasil. “Agrotóxicos sem registro não passaram por avaliação dos órgãos competentes, portanto são produzidos de forma clandestina e sem nenhuma segurança para a saúde dos trabalhadores rurais e dos consumidores”, afirma o diretor da Anvisa, Agenor Álvares.



Durante a fiscalização, também foi identificado que mais de 2/3 dos estoques de matérias primas e componentes utilizados pela Fersol para produção de agrotóxicos e inseticidas, que correspondem a mais de 200 mil litros de produtos, estavam com os prazos de validade vencidos. “Em alguns casos, foram encontrados produtos vencidos desde 2007”, complementa Álvares.



Devido, as irregularidades encontradas, a Polícia Civil Especializada em Crimes Contra Saúde Pública do Estado de São Paulo prendeu o responsável técnico da fábrica. Do ponto de vista sanitário, as infrações encontradas podem ser penalizadas com a aplicação de multas de até R$1,5 milhão. Também participaram da fiscalização a Vigilância Sanitária e a Guarda Municipal de Mairinque



Clorpirifós



O Clorpirifós integra o grupo químico dos organofosforados, que geram alto risco à saúde e que podem levar a problemas no sistema nervoso e a déficits de função cognitiva. Em 2004, a Anvisa reavaliou o Clorpirifós e concluiu que as intoxicações causadas pelo referido ingrediente ativo podem provocar distúrbios cerebrais e no desenvolvimento de crianças.



No mesmo ano, a Agência proibiu o uso de inseticidas de uso doméstico e coletivos à base de Clorpirifós. Na época, a decisão foi tomada para evitar danos à saúde decorrentes da ação neurotóxica desses inseticidas.


Imprensa/Anvisa

terça-feira, novembro 02, 2010

E agora José?


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou, z
o teu eleitor sumiu,
a campanha findou,
e agora, José?
E agora, você?
Você que mente e engana,
que zomba dos outros,
você que faz calúnias, manipula,
que odeia, detesta?
E agora, José?
Está sem mandato,
está sem discurso,
está sem caminho,
já não pode ofender,
já não pode degradar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
a campanha passou,
o dia da posse não vem,
o trem da alegria não vem,
o riso não vem,
não vem a utopia da faixa presidencial
e agora, José?
Sua falsa palavra,
seu instante de delírio,
sua sede de poder,
sua falta de escrúpulos,
sua imprensa marrom,
sua lavra de ouro (4 milhões),
seu terno de vidro, sua cara de pau,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com as calças na mão
queria ser presidente,
não existe presidência;
queria morrer na mar de Minas,
mas o mar de Minas nunca existiu;
queria ir para o Palácio da Alvorada,
palácio da Alvorada não há mais.
José, e agora?
Se você tocasse
a valsa do adeus,
se você sumisse,
se você evaporasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é osso duro de roer, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-papão,
sem teogonia,
sem cargo político
para se encostar,
sem Paulo Preto
que fuja a galope,
só com o apoio da oligarquia,
dos ecochatos, da Ku Klux Klan Verde-amarela,
da Mídia Golpista e do Vatucano,
você marcha, José!
José, para onde?
Prefeitura de Sampa em 2012?
Quem sabe?
(livre adaptação do poema José , de Carlos Drummond de Andrade, publicado na Carta Capital)

quinta-feira, outubro 14, 2010

A hipocrisia Serra

“Monica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor”, afirma ex-aluna da mulher de presidenciável

retirado de :

http://correiodobrasil.com.br/monica-serra-ja-fez-um-aborto-e-sou-solidaria-a-sua-dor-afirma-ex-aluna-da-mulher-de-presidenciavel/185824/

O desempenho do presidenciável tucano, José Serra, no debate do último domingo pela TV Bandeirantes, foi a gota d’água para uma eleitora brasileira. O silêncio do candidato diante da reclamação formulada pela adversária, Dilma Rousseff (PT) – de que fora acusada pela mulher dele, a ex-bailarina e psicoterapeuta Sylvia Monica Allende Serra, de “matar criancinhas” –, causou indignação em Sheila Canevacci Ribeiro, a ponto de levá-la até sua página em uma rede social, onde escreveu um desabafo que tende a abalar o argumento do postulante ao Palácio do Planalto acerca do tema que divide o país, no segundo turno das eleições. A coreógrafa Sheila Ribeiro relata, em um depoimento emocionado, que a ex-professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Monica Serra relatou às alunas da turma de 1992, em sala de aula, que foi levada a fazer um aborto “no quarto mês de gravidez”.

Em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, na noite desta segunda-feira, Sheila deixa claro que não era partidária de Dilma ou de Serra no primeiro turno: “Votei no Plínio (de Arruda Sampaio)”, declara. Da mesma forma, esclarece ser apenas uma eleitora, com cidadania brasileira e canadense, que repudiou o ambiente de hipocrisia conduzido pelo candidato da aliança de direita, ao criminalizar um procedimento cirúrgico a que milhões de brasileiras são levadas a realizar em algum momento da vida. Sheila, durante a entrevista, lembra que no Canadá este é um serviço prestado em clínicas e hospitais do Estado, como forma de evitar a morte das mulheres que precisam recorrer à medida “drástica e contundente”, como fez questão de frisar.

No texto, intitulado “Respeitemos a dor de Mônica Serra”, Sheila Ribeiro repete a pergunta de Dilma, que ficou sem resposta:

– Se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

Leia o texto, na íntegra:

Respeitemos a dor de Mônica Serra

“Meu nome é Sheila Ribeiro e trabalho como artista no Brasil. Sou bailarina e ex-estudante da Unicamp onde fui aluna de Mônica Serra.

“Aqui venho deixar a minha indignação no posicionamento escorregadio de José Serra, que no debate de ontem (domingo), fazia perguntas com o intuito de fazer sua campanha na réplica, não dialogando em nenhum momento com a candidata Dilma Roussef.

“Achei impressionante que o candidato Serra evita tocar no assunto da descriminalização do aborto, evitando assim falar de saúde pública e de respeitar tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Mônica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor.

“Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de quatro meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois que seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável. Aqui está a prova de que o aborto é uma situação terrível, triste, para a mulher e para o casal, e por isso não deve ser crime, pois tantas são as situações complexas que levam uma mulher a passar por essa situação difícil. Ninguém gosta de fazer um aborto, assim como o casal Serra imagino não ter gostado. A educação sobre a contracepção deve ser máxima para que evitemos essa dor para a mulher e para o Estado.

“Assim, repito a pergunta corajosa de minha presidente, Dilma Roussef, que enfrenta a saúde pública cara a cara com ela: se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

“Nesse sentido, devemos prender Mônica Serra caso seu marido seja eleito presidente?

“Pelo Brasil solidário e transparente que quero, sem ameaças, sem desmerecimento da fala do outro, com diálogo e pelo respeito à dor calada de Mônica Serra,

“VOTO DILMA”, registra, em letras maiúsculas, no texto publicado em sua página no Facebook, nesta segunda-feira, às 10h24.

Reflexão

Diante da imediata repercussão de suas palavras, Sheila acrescentou em sua página um comentário no qual afirma ser favorável “à privacidade das pessoas”.

“Inclusive da minha. Quando uma pessoa é um personagem público, ela representa muitas coisas. Escrevi uma reflexão, depois de assistir a um debate televisivo onde a figura simbólica de Mõnica Serra surgiu. Ali uma incongruência: a pessoa que lutou na ditadura e que foi vítima de repressão como mulher (com evento trágico naquele caso, pois que nem sempre o aborto é trágico quando é legalizado e normalizado) versus a mulher que luta contra a descriminalização do aborto com as frases clássicas do “estão matando as criancinhas”. Quem a Mônica Serra estaria escolhendo ser enquanto pessoa simbólica? Se é que tem escolha – foi minha pergunta.

“Muitas pessoas públicas servem-se de suas histórias como bandeiras pelos direitos humanos ou, ainda, ficam quietas quando não querem usá-las. Por isso escrevi ‘respeitemos a dor’. Para mim é: respeitemos que muita gente já lutou pra que o voto existisse e que para que cada um pudesse votar, inclusive nulo; muita monica-serra-pessoa já sofreu no Brasil e em outros países na repressão para que outras mulheres pudessem escolher o que fazer com seus corpos e muitas monicas-serras simbólicas já impediram que o aborto fosse descriminalizado.

“Muitas pessoas já foram lapidadas em praça pública por adultério e muitas outras lutaram pra que a sexualidade de cada um seja algo de direito. A minha questão é: uma pessoa que é lapidada em praça pública não faz campanha pela lapidação, então respeitemos sua dor, algo está errado. Se uma pessoa pública conta em público que foi lapidada, que foi vítima, que foi torturada, que sofreu, por motivos de repressão, esse assunto deve ser respeitadíssimo.

“Vinte por cento da população fazem abortos e esses 20% tem o direito absoluto de ter sua privacidade, no entanto quando decidem mostrar-se publicamente não entendo que estes assimilem-se ao repressor”, acrescentou a ex-aluna de Monica Serra, que teria relatado a experiência, traumática, às alunas da turma de 1992.

Exílio e ditadura

Sheila diz ainda, em seu depoimento, que “muitas pessoas querem ‘explicações” para o fato de ela declarar, publicamente, o que a ex-professora disse às suas alunas na Unicamp.

“Eu sou apenas uma pessoa, uma mulher, uma cidadã que viu um debate e que se assustou, se indignou e colocou seu ponto de vista na internet. Ao ver Dilma dizendo que Mônica falou algo sobre ‘matar criancinhas’, duvidei.

“Duvidei porque fui sua aluna e compartilhei do que ela contou, publicamente (que havia feito um aborto), em sala de aula. Eu me disse que uma pessoa que divide sua dor sobre o aborto, sobre o exílio e sobre a ditadura, não diria nunca uma atrocidade dessas, mesmo sendo da oposição. Essa afirmação de ‘criancinhas assassinadas’ é do nível do ‘comunista come criancinha’. A Mônica Serra é mais classe do que isso (e, aliás, gosto muito dela, apesar do Serra não ser meu candidato).

“Por isso, deixei claro o meu posicionamento que o aborto não pode ser considerado um crime – como não é na Itália, na França e em outros países. Nesse sentido não quero ser usada como uma ‘denunciadora de um ‘delito’. Ao contrário, estou relembrando na internet, aos meus amigos de FB (Facebook), que o aborto é uma questão complexa que envolve a todos e que, como nos países decentes, não pode ser considerado um crime – mas deve ser enfrentado como assunto de saúde.

“O Brasil tem muitos assuntos a serem tratados, vamos tratá-los com o carinho e com a delicadeza que merece.

“Agora volto ao meu trabalho”, conclui Sheila o seu relato na página da rede social.

Sem resposta

Diante da afirmativa da ex-aluna de Sylvia Monica Serra, o Correio do Brasil procurou pelo candidato, no Twitter, às 23h57:

“@joseserra_ Sr. candidato Serra. Recebemos a informação de que Dnª Monica Serra teria feito um aborto. O sr. tem como repercutir isso?”

Da mesma forma, foi encaminhado um e-mail à assessoria de imprensa e, posteriormente, um contato telefônico com o comitê de Serra, em São Paulo. Até o fechamento desta matéria, às 1239h desta quarta-feira, porém, não houve qualquer resposta à pergunta. O candidato, a exemplo do debate com a candidata petista, novamente optou pelo silêncio.

terça-feira, outubro 12, 2010

Movimentos pela legalização do aborto respondem ao uso eleitoral do debate

NOTA PÚBLICO DO ABORTO

Mais uma vez, em contextos de disputa eleitoral, o patriarcado por meio de seus representantes na classe política conservadora, explora as necessidades do povo. Mais uma vez é sobre o corpo das mulheres e contra a autonomia das mulheres que a disputa se faz. Ainda hoje e apesar da Lei do Planejamento Familiar de 1996, pratica-se a troca de votos por laqueadura de trompas. Apela-se para a mentira e o terrorismo para combater a luta por direitos humanos para as mulheres e para chantangear candidaturas.

Desde os anos 1980, o movimento de mulheres adota o 28 de setembro como o Dia Latino-Americano Pela Descriminalização do Aborto. Este ano, nessa data, foi lançada a Plataforma para Legalização do Aborto no Brasil. Na Plataforma estão colocados os termos do debate que queremos fazer com a
sociedade brasileira, os movimentos sociais, as associações de classe, os partidos, parlamentares, o Poder Judiciário e o Executivo. Queremos que o debate seja feito de forma politizada e não moralista.
Repudiamos o uso político da questão do aborto, causa tão complexa e importante para a vida das mulheres. Repudiamos as lideranças religiosas que manipulam informações, aterrorizam e mentem para seus fiéis em favor da ampliação de seu próprio poder político.

Exigimos respeito à dignidade das mulheres! Queremos um ambiente democrático para fazer o debate franco e informado sobre o direito à maternidade e à auto-determinação reprodutiva para todas as mulheres, sem discriminação de classe ou de cor.


Nota de Repúdio contra o uso eleitoral do debate sobre aborto


FRENTE NACIONAL CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES
E PELA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO
Em, 08 de outubro de 2010.
Nenhuma mulher deve ser presa, punida, perseguida,
maltratada, ou humilhada por ter feito um aborto.

quinta-feira, maio 27, 2010

Mulher morre na sala de parto depois que teve pedido de aborto negado




Depois da morte, a ação


Dor de cabeça no Ministério Público Estadual. Mulher morre no momento do parto depois de ter seu direito a um “abortamento assistido” negado.
E agora, José?
Uma mulher que teve uma gestação de feto com Displasia Esquelética Letal Tanatofórica, uma doença que é incompatível com a vida extra-uterina (a criança não sobreviveria depois de nascer) pediu, via Ministério Público, para fazer um abortamento assistido e lhe foi negado o direito.
Resultado: Na hora do parto, a mulher morreu.

De novo, não!

Agora, para que se evitem novos casos desse tipo, a Promotora de Saúde Iara Pinheiro quer que a Maternidade Januário Cicco, da UFRN, explique melhor as deformações fetais que podem levar risco de morte às mães para que juízes possam se servir de meios mais científicos para tomarem suas decisões.
A MEJC ficou de elaborar parecer médico sobre outras situações de deformidades do feto que sejam incompatíveis com a vida extrauterina e gerem riscos agravados à gestante.
Aborto: a vida de quem está em jogo?
Esse caso mostra mais uma vez a situação de vulnerabilidade que as mulheres brasileiras estão em função de uma legislação que criminaliza o aborto e coloca a vida da mulher em segundo plano influenciada por concepções político-religiososas em um estado que se diz laico. Enquanto o aborto não for legalizado mais mulheres continuarão morrendo pela desassistência à sua saúde e o aborto inseguro continuará sendo uma das principais causas de morte entre mulheres grávidas.
Adaptado do site do grupo Católicas pelo direito do decidir ( www.catolicasonline.org.br)

segunda-feira, março 22, 2010

A mídia não gosta de mulher


Seguiremos em marcha até que todas sejamos vistas!


Nestes últimos dias aconteceu talvez uma das maiores mobilizações na esquerda que seria possível nestes tempos de descenso e considerando ser um ano eleitoral. Cerca de 2000 mulheres marcharam de campinas a são paulo sob a organização da Marcha Mundial das Mulheres, mas mostrando uma pluralidade e uma vitalidade impressinante. As caminhadas aconteciam pela manhã durante a tarde ocorria momento de formação política, já que muitas vinham de seus estados para um primeiro contato com muitas pautas do feminismo como a questão do aborto. Apesar disso, a grande mídia de direita e por que não dizer misógina, ignorou em seus noticiários propositadamente, o que fica clara a tomada de posição quando a globo noticia dois dias depois da chegada da marcha em são paulo uma manifestação contra o aborto. Mas deixe estar, como diz uma das palavras de ordem da marcha: se cuida, se cuida, se cuida, seu machista, a américa latina vai ser toda feminista!

domingo, dezembro 13, 2009

Ato, ato, ato, cada um no seu quadrado


Ato médico, demais atos da saúde e outras idiotices corporativas


Este final de 2009 trás de de volta um defunto há algum tempo esquecido. E como toda carne morta, quanto mais o tempo passa, mais fede. O velho debate sobre o ato médico. Há algum tempo eu entrava na faculdade de medicina e me deparo na aula de bioética com uma cartilha tentando nos convencer e à sociedade sobre a legitimidade do projeto de lei. Naquele momento, até pelo texto do projeto ser bem ruim nem pestanejei em ser contra. Afinal, algo que todos os meus colegas e professores eram unânimes em apoiar não podia ser boa coisa. Mas pra não falar antes de pensar, mesmo que por pensar sejamos criticados assim mesmo, fui ler e estudar sobre o ato médico e os demais atos de profissões da saúde, ou melhor dizendo, sobre as leis que regulamentam a atuação profissional de cada uma. Logo chama atenção que a maioria delas é anterior ao surgimento do SUS. Uma, como a de fisio, ainda evoca o AI-5 em seu texto, não negando o seu contexto de surgimento. Eu tinha então o seguinte raciocínio: muito barulho por quase nada. Se cada profissão já disse o que faz em sua legislação, o que sobrou, é do médico, goste ou não. Nem uns teriam motivo pra dizer que com a nova lei iam perder espaço, pois teoricamente não poderiam ir além do que seus preveem, nem os médicos poderiam espernear para retirar o que já está previsto nas demais leis. Como uma pizza de 8 pedaços para oito pessoas. Se 7 já comeram, não há porque debater se o último deve comer meio ou 2 pedaços. Mas parece que poucos viam o óbvio. O assunto ficou adormecido durante todo o meu curso de medicina e agora, com o ato médico aprovado na câmara, volta com força total. Até a cartilha reeditaram! Verdade que o texto do ato está um pouco melhor, mas difícil saber nessa disputa quem erra mais. Os demais profissionais, conseguiram em talvez uns cem anos de especialização da área da saúde, fazer o que os médicos levaram muito séculos para conseguir: preocupar-se muito mais com a sua fatia na pizza chamado mercado que com aefetividade no trabalho em saúde. Nunca vi tanta asneira dos dois lados. De quererem provar que o médico não sabe de nada ao comparar a prescrição de medicamentos com a de fisioterapia a os médicos, por sua vez, negarem o dignóstico funcional feito pelos fisioterapeutas. São 14 profissões falando do que não conhecem, pois no curso de medicina ninguém sabe o que um biomédico estuda e no curso de psicologia também não é dito o que se estuda em medicina. Como não se conversam, só quem se lasca é o paciente. Fanatismos dos dois lados, ninguém quer fazer o racional que seria, diante de tanto avanço no conhecimento e saúde e a mudança na assistência à saúde do Brasil, admitir o quão ultrapassado é esse conjunto de monólogos e revogar todos os atos anteriores ao SUS, discutindo conjuntamente as diversas categorias e a população uma nova regulamentação para a saúde, definido o que é compartilhado e o que é nuclear de cada profissãoe qual a responsabilidade de cada um quando algo dá errado (pois essa responsabilidade ninguém quer dividir com o médico). Antes disso é preciso ter a humildade de perguntar ao outro o que sabe e dizer o que sabemos, afim de ver como todos juntos podem construir a saúde, fugindo à lógica da multidisciplinaridade semelhante a um alinha de produção: cada um vai e coloca a sua pecinha no pacienet que passa à sua frente - um remédio, uma dieta, um alongamento, uma bolsa-família, um número de prontuário - e no final ninguém sabe exatamente o que se tem, nem mesmo o próprio paciente.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

A lista

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

Oswaldo Montenegro

terça-feira, novembro 03, 2009

Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos

domingo, agosto 30, 2009

Era-me mais fácil imaginar um mundo sem criador do que um criador carregado com todas as contradições do mundo.

Simone de Beauvoir

segunda-feira, agosto 24, 2009

Mulheres golpistas, mulheres golpeadas

por peruano última modificação 20/08/2009 11:39


CRÔNICA Outro dia de julho no eterno junho negro de Honduras

Melissa Merlo No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance. Umas receberam poder, outras, dinheiro, e outras, as ingênuas, receberam santas indulgências.Se vestem de branco para satirizarem o camponês e o pobre enegrecido do trabalho. As caras curtidas, os descalços, os professores que caminham diante de suas pulcras casas lhes provocam náuseas, e elas, brancas e pulcras como suas casas, expelem sapos e cobras contra os que lutam por ser livres.
Elas, as de branco, estão presas em suas lindas casas. Oprimidas por pais, noivos, esposos, amantes ou filhos. Gaiolas de ouro em pleno século 21. A pouca liberdade que conhecem é a de se vestir de branco, jeans e sportshoes, alisar os cabelos para que combinem com um lindo chapéu, pintar suas unhas acrílicas com motivos brancos, escolher a jewlery do dia, um toque discreto de 212 forwomen, e preparar uma backpack com a garrafinha de Evian, um pacotinho de light cookies, o glossy, uma foodcard e um lencinho para o suor, que descobriram que destrói a maquiagem.
Com a checklist terminada, vestem suas empregadas de branco, branco perfeito em caso de emergência, põem seus óculos Dior e saem a sussurrar pela paz e a democracia. Duas horas são suficientes nesse calor sufocante. Mas, por sorte, estão perto dos fastfood.
Com um iced tea e um pouquinho no airconditioner, o corpo terá de novo seu frescor habitual. Sua ideia de paz voa pelos ares com a velocidade de um projétil, cai ferida no pavimento e explode em uma espécie de gás, branco, claro, que incompreensivelmente faz correr a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com trapos sujos que as faz tossir e se asfixiarem como doentes.
A paz implodiu, hora de ir para casa. No meu país, há mulheres que venderam a alma a quem deu o melhor lance.
Umas receberam fome, outras, insultos, e outras, as mais valentes, receberam golpes brutais. Vestem- se de cores para satirizar a chuva, o sol inclemente, a ignorância. As caras brancas, os bem-vestidos e os empresários que dirigem diante de suas casas curtidas lhes provocam pena, e elas, coloridas e curtidas como suas casas, expelem gritos de liberdade contra os que lutam por humilhá- las.
Elas, as coloridas, estão livres em suas casas coloridas. Apoiadas por pais, noivos, esposos, amantes, filhos, ou por ninguém. Casas abertas em pleno século 21.
A liberdade que conhecem é a de se vestir de cores, yin e tênis, enfiar os cabelos dentro de um chapéu, esconder suas unhas de pontas descascadas cheirando a comida caseira, escolher as bijuterias do dia, uma boa borrifada de uma imitação de 212 para mulheres, preparar uma mochila com a garrafa de água, um saco de sanduíche, o estojinho de maquiagem, uns 50 lempiras em dinheiro e um lenço molhado, caso joguem gases lacrimogêneos. Com tudo na mochila checado, vestem seus filhos com cores, roupa muito cômoda em caso de emergência, põem seus óculos imitações da Dior e saem a gritar pela liberdade e pela pátria. Doze horas são suficientes nesse calor sufocante.
Mas, por sorte, estão perto dos pronto-socorros. Com uma horchata e um pouquinho na sombra, o corpo terá de novo sua energia habitual. Sua ideia de paz caminha pela rua ao ritmo de tambores, enérgica, avança pelo pavimento e se espalha em uma espécie de grafite colorido, claro, que incompreensivelmente faz retroceder a multidão que está perto, e lhes obriga a tapar o nariz e a boca com as mãos, e as faz se meterem em seus carros e se esconderem temerosas. A liberdade implodiu, hora de seguir adiante.Tradução: Igor Ojeda. O original, em espanhol, encontra-se em http://alainet.org/active/32140